9 Frases motivacionais pra você não seguir ao pé da letra

Todos os dias somos infernizadas agraciadas com frases motivacionais, como se tivéssemos uma torcida inteira dedicada a nos apoiar para não deixar a peteca cair.

São cursos, rodas, conversas, workshops, pílulas de incentivo, slides de animação, mentoria pra uma vida plena – enfim, as redes sociais estão de braços abertos para que nos tornemos líderes, pessoas de sucesso, alguém que toma muita água e nunca esquece o filtro solar.

Daí que você não consegue alcançar o prometido, cansa de tentar, se acha a pior das criaturas e finalmente: desiste! Não, não vá por esse caminho antes de ler essas frases realmente motivacionais.

Precisamos prestar atenção no conteúdo que absorvemos e na utilidade dele
Precisamos prestar atenção no conteúdo que absorvemos e na utilidade dele

1 – “Você consegue, é só ter atitude positiva”

Infelizmente ter atitude positiva não vai pagar seus boletos no banco. Então, melhor do que ter atitude positiva é ter uma visão real da sua saúde financeira e do seu objetivo, traçando metas reais e cumprindo prazos diariamente; não tem milagre, só trabalho suado mesmo;

2 – “Seja proativa, pense fora da caixa”

Por favor, não pense fora da caixa. Tem muita gente pensando fora da caixa e não fazendo absolutamente nada, então pense dentro da sua caixa, compartilhe informação com as pessoas que admira e siga exemplos reais – não vale seguir ninguém do Vale do Silício se você ainda precisa aprender a dizer bom dia;

3 – “Não nos traga problemas, traga a solução”

O problema é que os problemas não vão se resolver sozinhos, assim como as soluções não serão apresentadas pra você por um anjo numa aparição milagrosa. É preciso falar dos problemas e encontrar soluções em conjunto, pois se não for pra ser assim, melhor nem se envolver;

4 – “Acreditamos no seu potencial”

O mundo pode acreditar no seu potencial, mas se você mesma não acreditar nele não adianta nada, não é mesmo? Portanto, mais importante do que a opinião das amigues é contar com o seu autoconhecimento nessa busca por resultados.

Existem muitas profissionais pra te ajudar nessa saga da autodescoberta – vale mais a pena pagar uma terapia bacanuda que vai lhe ajudar a trilhar o caminho das pedras do que se autoenganar pagando uma coaching de alta performance quando você ainda não descobriu o que quer da vida;

5 – “Seja você a mudança que quer ver no mundo”

Oi? Como assim? Não vai funcionar. Seja você a mudança que quer na sua vida.

Antes de tentar fazer algo pelas mazelas humanas faça por você, sabe? Assim, sem pretensão, só olhando pro próprio umbigo mesmo, fazendo o melhor que puder pra se sentir feliz e plena consigo – dessa forma, com certeza você vai afetar a estrutura toda.

6 – “Seja líder, dê exemplo”

Já pensou se o mundo todo fosse feito de líderes e de exemplos? Eu que não ia querer viver nele. Seja só você, você não precisa ser líder e nem exemplo pra ninguém, você precisa apenas e tão-somente fazer o que faz bem feito – e se for o que você ama, melhor ainda.

7 – “Com determinação é possível vencer qualquer obstáculo”

Com determinação as chances de êxito são de fato maiores, mas existem obstáculos que vão precisar de muito mais técnica do que determinação.

Seja determinada a fazer o que sabe; não dá pra vencer obstáculos de T.I. se sua formação for ciências sociais, por exemplo. Nesse caso esteja determinada a pedir ajuda de uma profissional que entenda do riscado.

8 – “Seja otimista”

A menos que você seja de sagitário, vai chegar uma hora que o otimismo vai pro brejo, e aí? Aí você precisa contar com aquela coisa realista que te acompanha e se chama consciência; ela vai te ajudar a achar uma saída, analisar os fatos e te acompanhar na saga de completar o ciclo.

9 – “Foque no resultado – mas viva o percurso”

Não tem jeito – pra chegar do ponto X ao Y tem uma linha sub-reptícia de acontecimentos diários – são esses dias que farão você chegar no resultado.

Foque no resultado (beleza, você tem um objetivo), pois isso é importante. Só que se você fingir que não precisa colocar um tijolinho em cima do outro diariamente pra chegar lá, melhor encontrar um plano pré-moldado que se encaixe no seu perfil e comprar logo ele: franquias podem ser uma opção, mas daí você tem que aceitar que não foi você quem construiu a ideia.

Encare isso como um desafio

É isso mesmo, encare isso tudo aí acima como um desafio. Aceite quem você é e o que é capaz de fazer; aceite suas limitações e sua criatividade do jeitinho que veio ao mundo. Não, você não precisa surpreender ninguém, a não ser você mesma.

Não pretendemos aqui descartar toda força que você encontra em frases diárias daqueles perfis tipo “good vibes” do Instagram. Estamos dizendo que motivação sem ação é ilusão.

A vida não é uma linha reta

– por Mariana Zambon Braga

Quando pensamos nos nossos objetivos e nos planos que traçamos para alcança-los, a tendência é idealizarmos uma linha perfeita, reta e precisa. Como um gráfico pontilhado de lógica e verdades. Depois de destrinchar todas as possibilidades da realização de um sonho ou projeto, desenhamos um mapa e colocamos o pé na estrada, por assim dizer.

A meta está lá, no fim do traço, na seta, no ponto de chegada. Está implícito que partimos apenas de um ponto fixo em nossa linha do tempo. Estamos no ponto A e desejamos ir ao ponto B, que no futuro se transformará em ponto C e assim por diante. Porque, obviamente, com o passar do tempo, teremos novos objetivos a conquistar.

E como nosso tempo sempre é curto, temos pressa de chegar ao final. Por isso, é comum ignorarmos os contratempos. Quer dizer, nós os consideramos – afinal, todo plano que se preze leva em conta os possíveis cenários negativos.

Traçamos diversas retas de um ponto a outro, imaginando quais serão os pit stops necessários ao longo do caminho. No âmbito profissional, essas paradas podem significar um curso, uma especialização, a expansão dos negócios. No contexto pessoal, podem ser as metas de relacionamento, autoconhecimento, tudo aquilo que consideramos vital para o nosso crescimento como seres humanos.

Mas, o que acontece quando essa linha se entorta um pouco para a direita, para a esquerda, desenhando traços sinuosos e curvas imprecisas? Será que estamos preparadas para pegar um desvio ou recalcular a rota?

Uma estrada tortuosa

Por mais que o nosso plano seja realista, a verdade é que é impossível prever tudo o que pode dar errado ou fugir do nosso controle. Ainda que nosso foco esteja bem estabelecido em nossos projetos, precisamos compreender que a existência não é algo linear. Esta seta imaginária que traçamos rumo ao tão sonhado horizonte pode se romper, por motivos que fogem ao nosso controle. E está tudo bem.

Um dos grandes aprendizados que a maturidade nos traz é compreender que o controle é algo que pode nos escapar por entre os dedos num piscar de olhos. E para manter a sanidade, para poder continuar em pé em meio à tempestade, é essencial termos em mente que, em algum momento da vida as coisas não vão sair como planejamos.

Pode ser que você saiba exatamente o que fazer para chegar aonde deseja. E, no meio do caminho, decida que não era bem esse o lugar onde queria estar.  Talvez, nesse momento de incerteza, uma luz de emergência se acenda dentro da sua bússola pessoal, indicando que não é possível voltar atrás, ou o fracasso será iminente.

Uma nova perspectiva

Vou te contar um segredo: não tem problema se você voltar atrás.  Às vezes, é a melhor coisa a se fazer. Escolher um novo ponto de partida, vislumbrar novos horizontes. Reinventar as suas possibilidades. Ainda que o objetivo permaneça o mesmo, você certamente não será a mesma, e isso, por si só, já é um novo começo.

A vida não é linear. É inconstante, tem caminhos tortuosos, nos faz tropeçar e mudar de rumo.  E muitas vezes são os terremotos e os imprevistos que nos ajudam a enxergar os cenários mais gratificantes.

No fim das contas, mais importante do que aonde iremos chegar é toda a jornada que nos leva até lá.


Mariana Zambon Braga
Responsável pela redação da Rede, é tradutora de inglês, formada em letras pela USP.

Atua nas áreas de: contratos, traduções técnicas, traduções literárias, artigos e monografias. Escritora por vocação e realizadora por necessidade. 


Imagem: Pexels

Você prefere ter razão ou descobrir a verdade?

– por Mariana Zambon Braga

Durante séculos, a humanidade tem desenvolvido ferramentas para investigar a verdade dos fatos da vida e do universo. A filosofia, os métodos de investigação científica, a racionalidade, de modo geral, nos auxiliam a organizar o pensamento e a demonstrar uma resposta através de mecanismos minimamente concretos.

Ignorar todo esse processo de evolução do pensamento é algo inimaginável, não é mesmo? Porém, a cada dia mais e mais notícias falsas pipocam em nossas timelines e presenciamos discussões embasadas em argumentos inexistentes – exceto pela máxima “essa é a minha opinião”.

Uma opinião não vale mais do que a verdade absoluta, por mais que nossas crenças pessoais sejam apaixonadas. Vocês acreditam que existe um grupo de pessoas que jura que a Terra é plana? E ai de você se tentar convencê-los do contrário, apresentando fatos.

Tudo isso porque nós achamos que estamos com a razão, que estamos certas, mesmo quando não estamos. E por que será que a gente resiste em aceitar que a nossa opinião ou nossas ideias estão erradas?

Quando se trata de opinião, somos, em maioria, combatentes. Tomamos nos braços o tesouro precioso criado pela nossa mente, formado por nossos conceitos e ideias, os trancamos em um baú bem protegido. Mostramos ao mundo quando desejamos e, pelo medo de sermos roubadas, voltamos a trancafiar a preciosa opinião a sete chaves, evitando ao máximo que ela seja transformada.

Queremos estar certas. Queremos vencer a batalha da argumentação. Isso nos dá uma sensação de poder, inteligência, sabedoria e validação. Queremos que a nossa visão de mundo prevaleça, acima de tudo.

Parece até que mudar de opinião é algo que nos rouba de nós mesmas. Embora, obviamente, não roube. O nosso valor pessoal não está atrelado ao fato de estarmos certas ou erradas a respeito de alguma coisa. 

Em sua palestra no TED, Julia Galef nos mostra que defender as suas crenças não é uma questão de personalidade forte, mas de mentalidade. Ela afirma que existem dois tipos predominantes de mentalidade: a do soldado, e a do batedor.

A mentalidade do soldado fará o que for preciso para combater as ideias inimigas, atacando-as, ou defendendo as suas próprias noções sobre o assunto em questão. É o que os cientistas chamam de tendência cognitiva ou viés cognitivo – que, em resumo, nos leva a tomar decisões com base nas emoções, e a confirmar teorias sem nenhum embasamento, apenas pelo “achismo” e pela validação de outras pessoas. Traduzindo: é uma mentalidade fechada.

Já a do batedor tentará ter uma visão clara da verdade, ainda que ela seja inconveniente ou nada prazerosa. O batedor não tentará vencer, mas sim procurar conhecer o cenário, identificar o que existe no plano real, investigando a situação da forma mais precisa e franca possível. A mente do batedor está sempre aberta.

Segundo a palestrante, essa é uma mentalidade fascinante. E eu tenho que concordar com ela. Vencer as barreiras dos nossos próprios preconceitos e tentar enxergar os fatos é muito difícil. Envolve admitir que nossos julgamentos estão errados, deixar de lado o nosso ego e as nossas emoções. Ser um pouco mais racional, perseguir mais a curiosidade.

Isso não significa que defender um ideal é algo errado ou contrário à racionalidade, de forma alguma. Porém, antes de tomar essa crença como sua e tentar defendê-la com unhas e dentes, busque a verdade. E, se você perceber que estava errada, tudo bem. A mente aberta é o que nos move a conhecer cada vez mais o mundo e a vida como realmente são. Na pior das hipóteses, nos ajuda a enxergar um pouco o outro lado da moeda.

Encerro este textão com o questionamento final da palestrante: “O que você mais anseia? Defender as suas crenças ou enxergar o mundo da forma mais clara possível?”

Confira o TED Talk da Julia na íntegra:


Mariana Zambon Braga
Responsável pela redação da Rede, é tradutora de inglês, formada em letras pela USP.
Atua nas áreas de: contratos, traduções técnicas, traduções literárias, artigos e monografias. Escritora por vocação e realizadora por necessidade.


Imagem: Unsplash

 

(Alguém nos) LIVRE (da Livre) NEGOCIAÇÃO

– por Ana Carolina Moreira Bavon

Quando recebi a notícia sobre a aprovação da reforma trabalhista não foram poucos os meus pesares.  Todas as minhas dúvidas são com relação ao aspecto jurídico dessa reforma, já que certamente a insegurança será instalada.

Minha conclusão pessoal é de que vai haver um período bastante nebuloso a partir de já. Penso que as empresas que antes deixavam de contratar em razão do enorme impacto financeiro passarão a contratar muito, obviamente fazendo uso da terceirização e da possibilidade de pagar trabalhadores por meio de contratação sob o manto da “pessoa jurídica” – vamos todos virar “pejotinha”.

Claro que esse boom vai ser veiculado pela mídia, as estatísticas vão noticiar o aumento do emprego, o aquecimento da economia e a queda da inflação, a estabilidade do dólar e outras maravilhosidades. Mas devemos lembrar que do outro lado haverá uma mão de obra precarizada, ou seja, sem qualquer proteção jurídica.

Pelas minhas análises e previsões, em 12 meses essa turma toda que foi contratada como PJ vai começar a se dar conta da instabilidade e vai haver muito questionamento, mas não poderá  recorrer à Justiça do Trabalho. Aí sim vamos começar a sentir o efeito dessa realidade que começa a ser desenhada agora.

Mas você pode me dizer: “Ana, existe a possibilidade de negociação e essa realidade que você está prevendo é bastante pessimista, acho que há um exagero”.

Eu concordo com você. Por natureza sou pessimista e tenho sempre do meu lado a possibilidade de ser surpreendida por coisas boas. Nesse caso, especificamente, eu torço para que elas aconteçam, mas não acredito.

A livre negociação não é essa maravilha, porque sempre haverá alguém esperto demais lidando com alguém esperto de menos. Os espertos de menos são os mortais com pouco ou zero conhecimento jurídico e sem habilidade alguma para negociar seu próprio valor de mercado dentro de uma sociedade onde “se você não quer tem quem queira”.

Há séculos foram pleiteados direitos sociais, eles foram a menina dos olhos da nossa Constituição Federal de 1988, porque visavam proteger a parte mais frágil da relação – o trabalhador.

Me pergunto: o que mudou entre 1988 e 2017 para que fosse desconsiderada totalmente essa falta de recursos próprios para debater direitos trabalhistas?

A livre negociação estará colocando de um lado empresas e seu exército de profissionais com conhecimento técnico e do outro lado um indivíduo que faz parte de um outro exército: o de 14,2 milhões de desempregados. Analisando o contexto social atual, quem será o bravo trabalhador que negociará as condições mínimas de trabalho quando tem família em casa e boletos a serem pagos?

Estamos falando sobre Direitos Sociais. Apesar de atenderem às necessidades individuais do ser humano, os direitos sociais tem caráter social (coletivo). Por quê? Porque uma vez que não são atendidas as necessidades de cada um, os efeitos nefastos recaem sobre toda a sociedade, e podem esperar sentadinhos em frente a sua TV4k – todos nós seremos afetados. Os direitos sociais são conquistas evolutivas e históricas, muita gente se arrebentou pra chegar até o ponto em que esses direitos foram considerados pelo Estado e inseridos na Constituição Federal.

São direitos sociais: “a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados”. Os direitos do trabalhador (férias, tempo mínimo de descanso etc etc etc) são direitos sociais (portanto, evoluíram a partir de muita luta, como eu falei acima). Esses direitos são um dos maiores exemplos de obtenção de garantias sociais ao longo da história (AO LONGO DA HISTÓRIA).

O direito previdenciário também é um direito social, ligado à condição humana em toda a sua existência. É contrapartida e valorização à vida das pessoas, por terem atingido determinada idade, ou terem se tornado incapazes de trabalhar mas que ainda precisam sustentar sua família, por tudo o que viveram e precisam viver com dignidade e conviver em sociedade. Ainda que a sociedade seja a mesma que não se importa com esses direitos.
Estamos PERDENDO tudo isso. E se há um motivo pra tristeza: é esse! A batalha não é entre fulano e sicrano (ao menos não deveria ser), a batalha é sobre Direitos conquistados a duras penas e a subtração deles.

Mesmo que sejamos ricos e saudáveis e não sejamos afetados por essas mudanças, nós enquanto indivíduos estamos sendo esbugalhados em nossos direitos sociais. TODO mundo vai ser atingido – por razões de: o efeito é coletivo, gente! C.O.L.E.T.I.V.O.

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Perdemos os direitos sociais e esse é só o começo.

 


Ana Carolina Moreira Bavon

Advogada, consultora jurídica e fundadora da Rede Feminaria.


Imagem: Recovery Place

Por uma maternidade real, consciente e empática

– por Fernanda Vicente

Em um sistema que nos vende a maternidade compulsória e romantizada, onde a mãe deve abrir mão de tudo e viver apenas para os filhos, é importante falarmos sobre a maternidade de forma crítica, real e empática.

No entanto, para debatermos sobreo assunto, é necessário levar em consideração as peculiaridades e especificidades de cada mulher. O gênero nos une, mas raça e classe nos separam em um determinado momento.

Por exemplo: sou mulher, mãe, branca, classe média e com graduação.  Sei das opressões que sofro por conta do meu gênero. E sendo mãe, essa opressão aumenta. Mas reconheço e admito meus privilégios. Posso a qualquer momento sofrer violência de gênero. Mas nunca saberei o que é o combo racismo mais machismo e misoginia.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apesar de uma melhora nos índices entre 2000 e 2010 em relação à população afro-brasileira, o analfabetismo entre as negras ainda é o dobro se comparado com as brancas. Em relação à taxa de desemprego, em 2015 foi registrado que 17,4% das mulheres negras com ensino médio estava sem emprego, contra 11,6% da média feminina.

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A violência obstétrica, por sua vez, afeta boa parte de mulheres no país, como aponta o levantamento da Agência Pública. Segundo dados de 2010 da Fundação Perseu Abramo, uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência durante o parto como gritos, procedimentos dolorosos não autorizados ou informados, ausência de anestesia e negligência. Há também queixas de assédio sexual durante o pré-natal. Com as mulheres negras a incidência da violência é mais presente.

Na campanha “SUS sem racismo”, do Ministério da Saúde, em 2014, 60% das vítimas de mortalidade materna no país são negras; somente 27% das mulheres negras tiveram acompanhamento durante o parto, enquanto do lado das mulheres brancas, esse número chega aos 46,2%.

Dialogarmos com diferentes realidades se faz necessário para uma maternidade crítica e política, para que possamos assim pontuar nossas demandas, que são muitas e, na maioria das vezes, ignoradas pelo sistema que prefere virar as costas e continuar explorando nossa força reprodutiva e de trabalho.

É preciso entender que nem toda mãe tem acesso a informações sobre parto, puerpério, amamentação. Nem toda mãe tem tempo para levar e buscar o filho na escola. Nem toda mãe pode optar por não mais trabalhar depois do parto. Nem toda mãe pode colocar o filho numa escola com uma pedagogia alternativa. Nem toda mãe tem tempo para cuidar dos filhos, principalmente quando essa mulher mora afastada dos centros urbanos e sai para trabalhar de madrugada muitas vezes para cuidar dos filhos de outras mulheres. Nem toda mulher tem acesso aos seus direitos mais básicos e a informações importantes.

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A construção de uma sociedade mais justa e igual também passa pelo olhar empático sobre a realidade de outras mulheres. Maternidade consciente não é apenas entendermos os mecanismos patriarcais em que estamos inseridas e tentarmos dessa forma lutar contra essa estrutura. É também olharmos com empatia para outras mães e procurarmos entender o que passa na vida dessa mulher, sem querer ser salvadora ou detentora da verdade, apenas entendendo que somos muitas, somos plurais e a consciência de uma maternidade crítica se dá a partir dai.


Fernanda Vicente é mãe, feminista, jornalista e idealizadora do projeto Mães no Enem & Mães na Universidade, uma ação que tem como objetivo apoiar e auxiliar mães estudantes em todo o país.


Imagens: London Scout – Unsplash

Desistir também é uma opção

– por Mariana Zambon Braga

Este não é um texto motivacional. Já existem muitos deles por aí, principalmente aqueles que dizem que “Desistir não é uma opção”. Como se chegar ao fim de alguma coisa, ou alcançar determinado objetivo, valesse a pena em qualquer situação. Mais ainda: como se fosse válido suportar toda e qualquer adversidade para sentir o gosto da vitória.

Em muitos casos, a persistência, o foco e a dedicação são, de fato, qualidades que nos impulsionam para as metas das quais temos plena convicção. Seguimos aguentando as dificuldades, engolindo os sapos da vida, trabalhando horas a fio, pois, no nosso íntimo, sabemos que o fim da jornada será válido. Ou, talvez, por não termos condições de analisar outras opções – quando, por exemplo, nosso emprego ou trabalho é a única maneira viável de sustento.

oleukena_givingupisnotanoption-2Supondo que estamos em uma situação na qual é possível escolher, o lema desistir não é uma opção nos estimula a continuar trilhando um caminho sem pensar em voltar atrás. Adotamos a mentalidade dos maratonistas, que seguem um percurso solitário e cansativo até a linha de chegada. E, como estes esportistas, descobrimos muitas riquezas ao longo do processo, transformando as cãibras, o suor e os quilômetros percorridos em aprendizado. A trajetória, em si, acaba sendo tão frutífera quanto a própria medalha. 

Mas e quando estamos em uma corrida sem fim? Ou melhor: e quando o percurso não nos leva a lugar algum e corremos em círculos? Nessas situações, talvez seja mais produtivo encarar a realidade e desistir, sem medo.

Antes de pensar em mergulhar de cabeça ou entregar-se de corpo e alma a um projeto ou a um objetivo a ser alcançado, precisamos ter certeza de que aquele é o lugar aonde queremos chegar. E nem sempre conseguimos ter a plena segurança de que estamos no caminho certo, não é mesmo? Em todos os contextos da nossa vida, no trabalho, nos relacionamentos e nos projetos pessoais, a dúvida nos visita constantemente.

Enquanto percorremos a estrada até o destino planejado, podemos começar a acreditar que aquilo não faz mais sentido. Neste caso, o que é melhor: permanecer num beco sem saída, num labirinto, ou dar alguns passos para trás e, com mais clareza, enxergar as novas possibilidades? 

É normal querer terminar algo que começamos. Dá uma sensação gostosa de dever cumprido, de conquista e merecimento. Por isso é tão difícil desistir. Pensamos: “Perdi tanto tempo da vida com isso, e agora vou abandonar?”.

Porém, ao invés de olhar para algo que você deixoleukena_givingupisnotanoption-3ou para trás como uma derrota ou uma desistência, você pode enxergar toda a bagagem que acumulou até aqui- seja em termos de qualificações e habilidades, seja em termos emocionais – e pensar em como ela será útil em qualquer outro caminho que você escolher trilhar.

Desistir de algo que não te faz bem ou que não te ajuda a crescer e melhorar não é sinônimo de fraqueza, mas de autoconhecimento e maturidade. Ao aceitar que nada nessa vida é permanente, que existem infinitos caminhos e que é, sim, possível (e às vezes, necessário) mudar de opinião, de foco e de objetivo, conseguimos nos cobrar menos.

Ser capaz de desistir é poder errar e reconhecer a força dos recomeços.

É preciso ter muita força para abdicar de um emprego sufocante ou explorador, para desapegar de um relacionamento abusivo, para seguir em frente e demolir as paredes dos becos sem saída e dos labirintos.

Desistir pode ser, sim, uma ótima opção. Só não podemos é desistir da vida, tão rica e repleta de possibilidades.


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Para ilustrar esse texto, escolhi a série de fotografias do artista alemão Ole Ukena. Ao olhar para esta instalação, somos confrontados, à primeira vista, com uma situação na qual o artista está prestes a terminar a obra. Uma escada, algumas letras, pregos, pincel e tinta ainda estão espalhados no chão, como se aguardassem pelo momento de serem usados. Ao olhar mais atentamente, percebemos que a frase “Giving up is not an option” (Desistir não é uma opção) deve ser lida à luz da ironia. O artista desistiu de terminar a instalação que recebe este nome e a obra é finalizada sem ser terminada.


Mariana Zambon Braga
Responsável pela redação da Rede, é tradutora de inglês, formada em letras pela USP.
Atua nas áreas de: contratos, traduções técnicas, traduções literárias, artigos e monografias. Escritora por vocação e realizadora por necessidade. Contato: redacao@feminaria.com.br

Do Puerpério: Nascer e Renascer

– por Elaina Nunes

“Criar bebês é muito árduo porque, assim como a criança, para ser, entra em fusão emocional com a mãe, esta, por sua vez, entra em fusão emocional com o filho para ser. A mãe passa por um processo análogo de união emocional. Ou seja, durante os dois primeiros anos, é fundamental uma “mãe-bebê”. As mulheres puérperas tem a sensação de enlouquecer, de perder todos os espaços de identificação ou de referência conhecidos; os ruídos são imensos, a vontade de chorar é constante, tudo é incômodo, acreditam ter perdido a capacidade intelectual, racional. Não estão em condições de tomar decisões a respeito da vida doméstica. Vivem como se estivessem fora do mundo; vivem, exatamente, dentro do “mundo-bebê. E é indispensável que seja assim. A fusão emocional da mãe com o filho é o que garante que a mulher estará em condições emocionais de se desdobrar para que a cria sobreviva”.

 – A maternidade e o encontro com a própria sombra, Laura Gutman.

 

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Quando Maria nasceu, Nadia morreu. Mas não pode tratar de seu funeral, pois haviam lhe dado uma missão: tornar o mundo o lugar mais hospitaleiro, eficiente e confortável para acolher corretamente sua arte manifesta, sua Maria. Sua obra estava lá, concreta, de olhinhos brilhantes e coração pulsante. Estava explícita, viva, viva.

Meu Deus, há um bebê dormindo lá no quarto. Uma alma, parte minha e totalmente externa a mim. Minhas entranhas estão balbuciando no moisés. Alguém aí, por favor, me explica como isso aconteceu? Mas espera, preciso estar viva agora, sua vida depende disso.

Mas Nadia estava morta, e em êxtase.

Não sei quem é você, belo bebê, e já não sei quem sou. Teremos que caminhar juntas, minha obra prima. Seja o que Deus quiser. Ressuscito-me na marra. O amor é visível, é possível tocá-lo. Tê-la em meus braços é morrer mais uma vez. Alguém por gentileza chame o SAMU; não peço mais nada, estou tentando dar conta de tudo sozinha.

Daí vieram os olhares, os dizeres, as ordens e o carrasco interior. É preciso que se faça assim, que esteja tudo dessa forma, cubra já essas tetas, tira o carrinho do caminho.

Se ela é minha? Porque duvidas senhora, por ela ser branquinha e eu moreninha? Não, amada, achei numa caçamba e catei pra mim de souvenir. Meu bem, perdoa, mas não esconderei as tetas. Não, querida, será feito dessa forma. Já estava tudo meio turvo, agora não enxergo mais nada. Será que será? E agora? Joga aí no Babycenter, cadê o livro do doutor Rinaldo?… Meu Deus, olha o que fiz com o umbigo de minha filha! A cabecinha dela tá ficando amassada. Não estou à altura de tamanha responsabilidade, desabo e morro mais uma vez.

Ela está chorando, deixa eu respirar. Voltemos ao começo. Não entendi, pode explicar de novo? Espera ela arrotar.

Daí, vieram os nãos, o medo, a falta de ar, a febre altíssima, as médicas grosseiras, o pavor novamente, as comparações. Ar, preciso de ar.  Mãe, olha ela rapidinho, darei um pulo na terapia, é caso de vida ou morte. Não te peço mais nada.

E foi assim que a força veio como uma represa arrebentada. Com a força, finalmente a voz.  Ela veio! ah obrigada minha Deusa, ela chegou e era bonita: era minha! Uma bela mezzo soprano abafada por regras, slings, conselhinhos, normas, supermothersoftheworld. Excluo-me de todos os grupos e retorno, plena, ao regaço aconchegante da Grande Mãe.

Um ano de trabalho de parto e enfim lá estava ela, a mãe da Maria! Toda torta, porém honesta, já que agora havia um norte e uma certeza interior. Estavam juntas, por fim! E juntas, Maria e Nadia são invencíveis.

O amor me fortalece e volta a ti triplicado, minha masterpiece. A vida agora tem gosto de chocolate e um grandíssimo sentido. Vambora juntas, amor maior de minha vida. Viver é uma aventura deliciosa, dá aqui sua mão… Obrigada, minha filha, obrigada.


Elaina Nunes

Oraculista há 20 anos, realiza leitura do Tarô e baralho Petit Lenormand com abordagem terapêutica. Estuda e investiga Astrologia e Simbologia, iniciando sua formação na Escola Santista de Astrologia e CEAP – Centro de Estudos de Astrologia Psicológica. É mãe da Stella e apaixonada por Carl Jung. Em breve realizará atendimentos presenciais na Casa Feminaria.


Imagem: Claudia Tremblay

Homens pela igualdade de gênero: Por que devemos nos envolver?

– por Fábio Fischer de Andrade

Receber o convite para redigir este texto me exigiu uma forte reflexão sobre o tema. Implicou pensar e repensar minhas próprias relações com as mulheres de meu círculo social, familiar e profissional. Em minha área de atuação, a Psicologia, o domínio do sexo feminino é evidente desde a graduação. Jogando a lupa para a área da saúde, onde atuei diretamente por seis anos, a presença delas é também impactante.

No microuniverso onde eu estava inserido, era a coisa mais normal do mundo fazer parte de uma equipe onde eu era o único homem; ouvir com muito bom humor a tal piada “…bendito é o fruto entre as mulheres” nas fotos de confraternização da turma; receber o mesmo salário que as outras colegas que tinham a mesma função; dar e receber ordens de uma mulher e em seguida fazer um curso de capacitação ministrado por outra. E funcionava muito bem, diga-se de passagem. Éramos iguais, dentro de nossas singularidades e particularidades de cargos e gêneros.

Infelizmente, conforme fui aprendendo e, principalmente, conversando com outras mulheres, percebi que realmente eu vivia numa bolha, pois minha realidade de igualdade de gênero era uma das exceções à “regra” vigente no mundo, e por isso eu não deveria usa-la como régua para mensurar outras situações.  A desigualdade existe, e passa batido com seus muitos disfarces mesmo aos olhos mais atentos.

Historicamente, quando se fala em igualdade de gênero, automaticamente vem à cabeça de muitos homens que esta é uma questão exclusiva das mulheres. De fato, elas por décadas têm manifestado suas lutas e impulsionado estratégias para conquista de direitos, pois sempre estiveram em desvantagem em relação ao sexo masculino. Não é de se estranhar que tal situação tenha criado uma imagem, uma representação social na cabeça dos homens, de que as mulheres é que são as únicas que saem no lucro numa sociedade onde prevalece a igualdade.

Mas não é assim que a coisa funciona. Homens também sofrem e muito com a ausência de igualdade de gênero, pois também se deparam com questões que vão desde assistência à saúde ineficaz, a uma imposição cultural e comportamental atroz, o “jeito de homem” que é cobrado, replicado e reforçado por gerações.

Vários estudos comparativos entre homens e mulheres têm comprovado o fato de que os homens são mais vulneráveis às doenças, sobretudo às enfermidades graves e crônicas, e que morrem mais precocemente que as mulheres.

Mesmo com toda essa vulnerabilidade dos números alarmantes de mortalidade, os homens não buscam, como fazem as mulheres, os serviços de atenção primária, o que faz com que acessem o sistema de saúde pela atenção ambulatorial e hospitalar e alta complexidade. Traduzindo: seja por desconhecimento ou por preconceito, só procuram o serviço de saúde quando a situação está crítica. Tal comportamento tem sérias consequências, como o agravo da doença, retardo no tratamento e maior custo. Sim, custo. Vidas não têm preço, mas saúde tem um custo, e é alto. A resistência masculina aos cuidados com a saúde também compromete emocionalmente sua família, que acaba muitas vezes arcando com o ônus de uma doença que poderia ter sido evitada com prevenção.

O conceito de masculinidade vem sido constantemente questionado, desconstruído e reformulado, tendo perdido seu rigor original na dinâmica do processo cultural. A masculinidade é construída historicamente e só­cio-culturalmente, sendo sua significação um processo em permanente transformação. Mesmo assim, ainda prevalece a ideia de que ser masculino é ser forte, e ser forte é não precisar buscar serviços de saúde, apenas em último caso. Em nossa sociedade, o “cuidado” é papel considerado como sendo femi­nino e as mulheres são educadas desde muito cedo para de­sempenhar e se responsabilizar por este papel.

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Para uma maior compreensão desta situação, sugiro o excelente documentário The mask you live in (EUA, 2015), da diretora Jennifer Siebel Newson, que apresenta um panorama perturbador e visceral sobre como meninos são criados, e levanta hipóteses de como estes podem ser educados para que cresçam e tornem-se homens mais saudáveis e cientes de seus papéis na sociedade. O filme também questiona sobre a relação do homem com o feminino, do porque o feminino é visto como algo a ser reprimido ou neutralizado e como isso afeta negativamente o desenvolvimento emocional do homem adulto.

Então, por que nós homens devemos mesmo nos envolver com a igualdade de gênero? Porque faz sentido e também porque nos beneficia. Não é um privilégio para mulheres, é um salto para qualidade de vida e saúde que todos nós precisamos dar.

É essencial que homens e mulheres estejam cientes dos benefícios que a igualdade de gênero lhes traz como indivíduos e como membros de comunidades e sociedades. Igualdade de gênero é trabalhar junto, e não apenas culpar uns aos outros por desigualdades.

E aos homens, cabe a conscientização sobre as causas e resultados de suas atitudes sobre as pessoas que estão ao seu redor.


fabioFábio Fischer de Andrade é graduado em Psicologia pela Universidade Católica de Santos. Especialista em Saúde da Família pela Universidade Gama Filho. Possui formação em Psicologia do Esporte pela clínica CEPPE & Associação Paulista de Psicologia do Esporte. Atende adolescentes, adultos e atletas em seu consultório em Santos-SP. Nas horas vagas se joga no meio do mato, correndo em provas de trilhas e montanhas. Contato: facebook.com/psicologofischer.

Em Perspectiva – a participação e a importância dos rapazes como aliados.

– por Mariana Zambon Braga e Ana Carolina Moreira Bavon

Nossa proposta na Feminaria é clara: “Impactar de maneira positiva a economia de maneira geral. Movimentar o mercado através de ações de colaborativismo, por meio do fomento e desenvolvimento de profissionais mulheres. Trabalhar não só pela igualdade de oportunidades entre os gêneros – mas criar uma cultura da empatia e ressignificação das relações comerciais.”

A protagonista da nossa história é a mulher economicamente ativa. Aqui na Rede todas somos mulheres, tudo aqui foi idealizado por cabeças femininas, com base nas nossas necessidades pessoais e projetado para a realidade de todas nós. Portanto, a Feminaria é Feminina em todos os seus lugares.

Além de ser um espaço democrático e de muita troca, acreditamos que o envolvimento dos rapazes no nosso movimento é mais do que necessário, é imprescindível. Acreditamos que toda mudança estrutural precisa do engajamento de todos, se falamos de impactar a economia de maneira positiva precisamos envolver todos os agentes: homens e mulheres.

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A importância de trazer para perto de nós a perspectiva masculina nos levou a criar a coluna: “Em Perspectiva – a participação e o ponto de vista deles”. O objetivo é trazer um novo ponto de vista sobre o nosso tema, e para isso precisamos dos olhos, ouvidos e palavras dos rapazes. Os homens podem e devem ser aliados na nossa luta por igualdade, equidade e ressignificação da ordem estabelecida. Além disso, acreditamos que é importante divulgar vozes masculinas que não reproduzem machismo e que buscam desconstruí-lo. Os rapazes também sofrem com o machismo institucionalizado e precisam sim de referências para aprender, trocar e se libertarem das consequências nefastas de uma sociedade que cria o homem pra ser “macho”. Conversa, troca, envolvimento, diálogo e muita informação transformam a nossa realidade, isso promove empatia e mudanças reais. E é disso que tratamos aqui na Feminaria.

E eis que surge outra questão importante: por que trazer homens para um espaço feminino?

Porque nossa proposta é uma mudança de paradigma e pra isso precisamos envolver todos os agentes da sociedade.

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Trazer os rapazes para perto de nós não significa coloca-los como nossos porta-vozes e nem que a palavra deles tem mais peso que a nossa. Também não significa que eles merecem um “biscoito” por suas atitudes. Significa apenas que dividimos um espaço neste mundo e que, sem a mudança do comportamento dos homens, o machismo não irá desaparecer só porque a gente deseja. Para uma sociedade mais equilibrada, precisamos de mulheres e de homens que tenham isso como objetivo comum.

Trazer os homens para perto, homens nos quais confiamos e que sabemos que serão propagadores de comportamentos positivos e transformadores, é somar forças.

Ter homens como aliados é ter o seu marido, seu namorado, seu amigo, seu filho, como um ponto de apoio para as suas lutas. Apoio, e não liderança. Eu, como mulher heterossexual e casada, preciso sempre manter um diálogo saudável com o homem com quem escolhi dividir a vida. Isso inclui apontar os privilégios dos quais ele desfruta e trabalhar, juntos, para que possamos desmantelar as estruturas tradicionais das relações e construir a nossa própria.

Nós, mulheres, somos as protagonistas do feminismo e das nossas pautas – somos nós que decidimos o que é importante e por que este ou aquele ponto específico precisa sofrer transformações. Somos nós que denunciamos as opressões, pois somos quem sofre com isso. Somos nós que apontamos o caminho a ser trilhado em nossas reivindicações por direitos e quando clamamos pelo fim da opressão. Isso é indiscutível. E a nossa luta sempre será nossa.

O protagonismo é nosso, a luta pode e deve ser coletiva!

Farão parte da coluna como colaboradores:

Fabio Fischer – psicólogo

David Alexandre – tradutor

Dom Lino – produtor musical


Imagens: Shutterstock


Ana Carolina Moreira Bavon

Advogada, consultora jurídica e fundadora da Rede Feminaria.


Mariana Zambon Braga
Responsável pela redação da Rede, é tradutora de inglês, formada em letras pela USP.
Atua nas áreas de: contratos, traduções técnicas, traduções literárias, artigos e monografias. Escritora por vocação e realizadora por necessidade.

O Teto de Vidro: Como as mulheres são impedidas de chegar no topo

– Tradução livre da Rede Feminaria do original publicado no site da Feminist Majority Foundation

Manchetes recentes têm contado a história que a mídia hegemônica quer que acreditemos em relação às mulheres nos altos cargos de chefia: “As Mulheres Marcam Presença e Ganham Respeito nas Diretorias”, “Nova Tendência de Carreira:  Ela Vai e Ele Vai Atrás”, “As Empreendedoras Progrediram Bastante”, “As Mulheres Estão Liberando a Fortaleza do Poder Masculino”, e “Você Progrediu Muito, Querida.”

Por mais descoladas que sejam as manchetes, estas descrições de sucesso da mulher no mundo corporativo são enganosas. Cada vez mais as mulheres estão esbarrando contra um ‘teto de vidro’. Ann Morrison descreve o problema: o teto de vidro é uma barreira “tão sutil que é transparente, mas ainda assim tão forte, que evita que as mulheres avancem na hierarquia corporativa.” Do ponto onde se encontram na escala de hierarquia, as mulheres conseguem ver as posições corporativas de alto nível, mas são impedidas de “chegar no topo” (Quebrar O Teto de Vidro).

De acordo com Morrison e suas colegas, o teto de vidro “não é simplesmente uma barreira individual com base na incapacidade de uma pessoa para lidar com um cargo de nível mais alto. Ao invés disso, o teto de vidro aplica-se coletivamente às mulheres, que são impedidas de avançar na hierarquia porque são mulheres.”

Qual a causa do “teto de vidro?” Confira a opinião das executivas.

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A segregação profissional corre solta

Da mesma maneira que o mercado geral de trabalho permanece segregado por sexo, as executivas estão concentradas em certos tipos de trabalho – a maioria como assistentes ou em empregos de apoio – que oferecem poucas oportunidades para se chegar ao topo. Uma pesquisa do Wall Street Journal de 1986 constatou que “As mulheres com os cargos mais altos, na maioria dos setores, encontram-se em áreas não-operacionais, como recursos humanos, relações públicas, ou ocasionalmente, em especialidades de finanças que raramente levam aos postos mais elevados da alta gestão”. As mulheres são deixadas de fora dos empregos da “via tradicional de negócios”, o caminho percorrido pelos CEOs e presidentes. Mas mesmo quando uma mulher consegue um desses empregos, não é muito provável que seja “em algum setor crucial do negócio” ou algum tipo de trabalho que possa “alçá-las como líderes.”

O Clube do Bolinha ainda é forte

De acordo com um recrutador de executivos, a maior barreira para as mulheres em altos níveis de gerência é “o grupinho dos caras que se sentam juntos à mesa” e tomam todas as decisões. Em resumo, ao decidir quem promover para um cargo de gestão, os líderes corporativos do gênero masculino tendem a selecionar pessoas mais parecidas com eles o possível – então, não é surpresa que as mulheres frequentemente nem sejam cogitadas na hora da promoção. Ao invés disso, os homens no topo procuram ex-colegas e velhos amigos de escola; em ambas as áreas, as mulheres têm ficado praticamente ausentes.

As executivas mulheres são frequentemente excluídas de atividades sociais e geralmente citam a “camaradagem” entre os homens que existe nos altos cargos. Os altos cargos de chefia são “a versão mais avançada do Clube do Bolinha.”

Mesmo em um nível mais formal, as mulheres relatam que há “certos tipos de reuniões” para as quais não são convidadas porque não são vistas como desenvolvedoras de políticas. As mulheres do mundo corporativo não viajam a trabalho com a mesma frequência que os homens, de acordo com pesquisas da Korn/Ferry Intemational (1982) e do Wall Street Joumal/Gallup (1984). Estudos confirmam essas diferenças de status e o tratamento diferente das mulheres. Um estudo constatou que entre executivos do mesmo nível, os homens “eram responsáveis por números maiores de empregados, tinham mais liberdade para contratar e demitir, e tinham controle mais direto dos bens da empresa” do que as mulheres (Harlan e Weiss).

A discriminação de gênero é difundida

Na pesquisa do Wall Street Journal/Gallup, perguntou-se às gestoras mulheres o que elas consideravam ser o obstáculo mais sério em suas carreiras. Apenas 3% citaram “responsabilidades familiares”, mas metade delas mencionou razões relacionadas a seu gênero, que incluíam: “crença na superioridade masculina, atitudes dirigidas a chefes mulheres, avanço lento para as mulheres, e o simples fato de ser uma mulher“. Na pesquisa da Korn/Ferry International, solicitou-se que as executivas mulheres citassem o maior obstáculo que tiveram que ultrapassar para alcançar o sucesso. A resposta mais frequente foi simplesmente “ser mulher” (40%). Em uma pesquisa recente do Los Angeles Times com 12,000 trabalhadores, dois terços relataram discriminação sexual; 60% mencionaram sinais de racismo.

No estudo do Wall Street Journal/Gallup, mais de 80% das mulheres executivas disseram acreditar que há desvantagens em ser mulher no mundo corporativo. Os homens, elas dizem, “não as levam a sério”. Na mesma pesquisa, 61% das executivas relataram ter sido confundidas com secretárias em reuniões de negócios; 25% disseram ter sido impedidas de ascender na carreira por atitudes masculinas contrárias a mulheres. Uma maioria significativa – 70% – acredita que recebe salários menores que homens com a mesma capacidade.

O assédio sexual é generalizado

O assédio sexual continua sendo um problema sério para mulheres em cargos de gestão. Em uma pesquisa da revista Working Woman de 1988 com executivos de empresas na lista das 500 maiores do mundo da revista Fortune, 90% das grandes empresas relataram reclamações de assédio sexual feitas por empregadas mulheres. A pesquisa constatou que “mais do que um terço das empresas tinham sido processadas por suas vítimas, e um quarto delas tinham sido processadas repetidas vezes“.

No entanto, de acordo com o mesmo estudo, apenas 20% dos agressores perderam o emprego; 4 em cada 5 apenas recebem uma bronca.

O assédio sexual “coloca a mulher em seu lugar”, então um ambiente corporativo que tolera o assédio sexual intimida e desmoraliza as executivas mulheres. Muitas mulheres hesitam em denunciar, por medo de que isso prejudique sua carreira.

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Há pouco cumprimento de leis antidiscriminação

Os mandatos dos presidentes Reagan e Bush devastaram o compromisso do governo federal com ações afirmativas. Como resultado disso, a igualdade foi tirada da agenda corporativa. Uma pesquisa de 1983 com 800 líderes empresariais, conduzida pela Sirota & Alpen Associates, constatou que em uma lista de 25 prioridades de recursos humanos, as ações afirmativas de proteção a mulheres e minorias ficou em 23° lugar.

A Suprema Corte Americana, com sua crescente maioria conservadora, emitiu uma série de sete sentenças sobre leis de igualdade de oportunidades de emprego que fazem com que seja mais difícil para mulheres e minorias protocolarem ações de discriminação salarial. Coletivamente, estas sentenças representam uma mudança significativa nas leis trabalhistas criadas durantes os últimos 25 anos. De acordo com o Civil Rights Monitor, as últimas sentenças da corte “fazem com que seja mais difícil para mulheres e minorias comprovarem atos de discriminação, torna mais fácil para os opositores de direitos civis contestarem instrumentos retificadores de violações, restringem a cobertura dos estatutos de direitos civis, e limitam a responsabilidade das empresas por honorários de sucumbência” (Civil Rights Monitor).

Por fim, os homens em cargos de governança corporativa tendem a não perceber a discriminação como um problema real, fazendo com que seja praticamente impossível implementar soluções legais efetivas. De acordo com um estudo detalhado de John P. Fernandez, homens brancos continuamente classificavam problemas encontrados por mulheres em cargos executivos como insignificantes em comparação à classificação feita pelas mulheres. Portanto, sem pressão externa constante e soluções legais sólidas, os problemas muito reais de discriminação de raça e gênero no alto escalão executivo talvez nunca sejam combatidos.


Imagens: Getty Images