- por Mariana Zambon Braga

Este não é um texto motivacional. Já existem muitos deles por aí, principalmente aqueles que dizem que "Desistir não é uma opção". Como se chegar ao fim de alguma coisa, ou alcançar determinado objetivo, valesse a pena em qualquer situação. Mais ainda: como se fosse válido suportar toda e qualquer adversidade para sentir o gosto da vitória.

Em muitos casos, a persistência, o foco e a dedicação são, de fato, qualidades que nos impulsionam para as metas das quais temos plena convicção. Seguimos aguentando as dificuldades, engolindo os sapos da vida, trabalhando horas a fio, pois, no nosso íntimo, sabemos que o fim da jornada será válido. Ou, talvez, por não termos condições de analisar outras opções - quando, por exemplo, nosso emprego ou trabalho é a única maneira viável de sustento.

oleukena_givingupisnotanoption-2Supondo que estamos em uma situação na qual é possível escolher, o lema desistir não é uma opção nos estimula a continuar trilhando um caminho sem pensar em voltar atrás. Adotamos a mentalidade dos maratonistas, que seguem um percurso solitário e cansativo até a linha de chegada. E, como estes esportistas, descobrimos muitas riquezas ao longo do processo, transformando as cãibras, o suor e os quilômetros percorridos em aprendizado. A trajetória, em si, acaba sendo tão frutífera quanto a própria medalha. 

Mas e quando estamos em uma corrida sem fim? Ou melhor: e quando o percurso não nos leva a lugar algum e corremos em círculos? Nessas situações, talvez seja mais produtivo encarar a realidade e desistir, sem medo.

Antes de pensar em mergulhar de cabeça ou entregar-se de corpo e alma a um projeto ou a um objetivo a ser alcançado, precisamos ter certeza de que aquele é o lugar aonde queremos chegar. E nem sempre conseguimos ter a plena segurança de que estamos no caminho certo, não é mesmo? Em todos os contextos da nossa vida, no trabalho, nos relacionamentos e nos projetos pessoais, a dúvida nos visita constantemente.

Enquanto percorremos a estrada até o destino planejado, podemos começar a acreditar que aquilo não faz mais sentido. Neste caso, o que é melhor: permanecer num beco sem saída, num labirinto, ou dar alguns passos para trás e, com mais clareza, enxergar as novas possibilidades? 

É normal querer terminar algo que começamos. Dá uma sensação gostosa de dever cumprido, de conquista e merecimento. Por isso é tão difícil desistir. Pensamos: "Perdi tanto tempo da vida com isso, e agora vou abandonar?".

Porém, ao invés de olhar para algo que você deixoleukena_givingupisnotanoption-3ou para trás como uma derrota ou uma desistência, você pode enxergar toda a bagagem que acumulou até aqui- seja em termos de qualificações e habilidades, seja em termos emocionais - e pensar em como ela será útil em qualquer outro caminho que você escolher trilhar.

Desistir de algo que não te faz bem ou que não te ajuda a crescer e melhorar não é sinônimo de fraqueza, mas de autoconhecimento e maturidade. Ao aceitar que nada nessa vida é permanente, que existem infinitos caminhos e que é, sim, possível (e às vezes, necessário) mudar de opinião, de foco e de objetivo, conseguimos nos cobrar menos.

Ser capaz de desistir é poder errar e reconhecer a força dos recomeços.

É preciso ter muita força para abdicar de um emprego sufocante ou explorador, para desapegar de um relacionamento abusivo, para seguir em frente e demolir as paredes dos becos sem saída e dos labirintos.

Desistir pode ser, sim, uma ótima opção. Só não podemos é desistir da vida, tão rica e repleta de possibilidades.


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Para ilustrar esse texto, escolhi a série de fotografias do artista alemão Ole Ukena. Ao olhar para esta instalação, somos confrontados, à primeira vista, com uma situação na qual o artista está prestes a terminar a obra. Uma escada, algumas letras, pregos, pincel e tinta ainda estão espalhados no chão, como se aguardassem pelo momento de serem usados. Ao olhar mais atentamente, percebemos que a frase "Giving up is not an option" (Desistir não é uma opção) deve ser lida à luz da ironia. O artista desistiu de terminar a instalação que recebe este nome e a obra é finalizada sem ser terminada.


Mariana Zambon Braga
Responsável pela redação da Rede, é tradutora de inglês, formada em letras pela USP.
Atua nas áreas de: contratos, traduções técnicas, traduções literárias, artigos e monografias. Escritora por vocação e realizadora por necessidade. Contato: redacao@feminaria.com.br

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