- por Fábio Fischer de Andrade

Receber o convite para redigir este texto me exigiu uma forte reflexão sobre o tema. Implicou pensar e repensar minhas próprias relações com as mulheres de meu círculo social, familiar e profissional. Em minha área de atuação, a Psicologia, o domínio do sexo feminino é evidente desde a graduação. Jogando a lupa para a área da saúde, onde atuei diretamente por seis anos, a presença delas é também impactante.

No microuniverso onde eu estava inserido, era a coisa mais normal do mundo fazer parte de uma equipe onde eu era o único homem; ouvir com muito bom humor a tal piada “...bendito é o fruto entre as mulheres” nas fotos de confraternização da turma; receber o mesmo salário que as outras colegas que tinham a mesma função; dar e receber ordens de uma mulher e em seguida fazer um curso de capacitação ministrado por outra. E funcionava muito bem, diga-se de passagem. Éramos iguais, dentro de nossas singularidades e particularidades de cargos e gêneros.

Infelizmente, conforme fui aprendendo e, principalmente, conversando com outras mulheres, percebi que realmente eu vivia numa bolha, pois minha realidade de igualdade de gênero era uma das exceções à “regra” vigente no mundo, e por isso eu não deveria usa-la como régua para mensurar outras situações.  A desigualdade existe, e passa batido com seus muitos disfarces mesmo aos olhos mais atentos.

Historicamente, quando se fala em igualdade de gênero, automaticamente vem à cabeça de muitos homens que esta é uma questão exclusiva das mulheres. De fato, elas por décadas têm manifestado suas lutas e impulsionado estratégias para conquista de direitos, pois sempre estiveram em desvantagem em relação ao sexo masculino. Não é de se estranhar que tal situação tenha criado uma imagem, uma representação social na cabeça dos homens, de que as mulheres é que são as únicas que saem no lucro numa sociedade onde prevalece a igualdade.

Mas não é assim que a coisa funciona. Homens também sofrem e muito com a ausência de igualdade de gênero, pois também se deparam com questões que vão desde assistência à saúde ineficaz, a uma imposição cultural e comportamental atroz, o “jeito de homem” que é cobrado, replicado e reforçado por gerações.

Vários estudos comparativos entre homens e mulheres têm comprovado o fato de que os homens são mais vulneráveis às doenças, sobretudo às enfermidades graves e crônicas, e que morrem mais precocemente que as mulheres.

Mesmo com toda essa vulnerabilidade dos números alarmantes de mortalidade, os homens não buscam, como fazem as mulheres, os serviços de atenção primária, o que faz com que acessem o sistema de saúde pela atenção ambulatorial e hospitalar e alta complexidade. Traduzindo: seja por desconhecimento ou por preconceito, só procuram o serviço de saúde quando a situação está crítica. Tal comportamento tem sérias consequências, como o agravo da doença, retardo no tratamento e maior custo. Sim, custo. Vidas não têm preço, mas saúde tem um custo, e é alto. A resistência masculina aos cuidados com a saúde também compromete emocionalmente sua família, que acaba muitas vezes arcando com o ônus de uma doença que poderia ter sido evitada com prevenção.

O conceito de masculinidade vem sido constantemente questionado, desconstruído e reformulado, tendo perdido seu rigor original na dinâmica do processo cultural. A masculinidade é construída historicamente e só­cio-culturalmente, sendo sua significação um processo em permanente transformação. Mesmo assim, ainda prevalece a ideia de que ser masculino é ser forte, e ser forte é não precisar buscar serviços de saúde, apenas em último caso. Em nossa sociedade, o “cuidado” é papel considerado como sendo femi­nino e as mulheres são educadas desde muito cedo para de­sempenhar e se responsabilizar por este papel.

COST-gender-2_0

Para uma maior compreensão desta situação, sugiro o excelente documentário The mask you live in (EUA, 2015), da diretora Jennifer Siebel Newson, que apresenta um panorama perturbador e visceral sobre como meninos são criados, e levanta hipóteses de como estes podem ser educados para que cresçam e tornem-se homens mais saudáveis e cientes de seus papéis na sociedade. O filme também questiona sobre a relação do homem com o feminino, do porque o feminino é visto como algo a ser reprimido ou neutralizado e como isso afeta negativamente o desenvolvimento emocional do homem adulto.

Então, por que nós homens devemos mesmo nos envolver com a igualdade de gênero? Porque faz sentido e também porque nos beneficia. Não é um privilégio para mulheres, é um salto para qualidade de vida e saúde que todos nós precisamos dar.

É essencial que homens e mulheres estejam cientes dos benefícios que a igualdade de gênero lhes traz como indivíduos e como membros de comunidades e sociedades. Igualdade de gênero é trabalhar junto, e não apenas culpar uns aos outros por desigualdades.

E aos homens, cabe a conscientização sobre as causas e resultados de suas atitudes sobre as pessoas que estão ao seu redor.


fabioFábio Fischer de Andrade é graduado em Psicologia pela Universidade Católica de Santos. Especialista em Saúde da Família pela Universidade Gama Filho. Possui formação em Psicologia do Esporte pela clínica CEPPE & Associação Paulista de Psicologia do Esporte. Atende adolescentes, adultos e atletas em seu consultório em Santos-SP. Nas horas vagas se joga no meio do mato, correndo em provas de trilhas e montanhas. Contato: facebook.com/psicologofischer.

2 thoughts on “Homens pela igualdade de gênero: Por que devemos nos envolver?

  1. Gratidão Fábio. Compartilhei sua fala em uma das minhas páginas. A Guilda das Mulheres de Assis S.P
    De fato, este é o momento de desconstruir padrões comportamentais, já passou da hora de nós mulheres criarmos os nossos “meninos” e “meninas” como seres humanos iguais uns aos outros. Parabéns pela matéria, e por favor, continue falando. Abraços.

    • Edna, fico feliz que o texto tenha feito sentido para você, e a gratidão é minha por espalhar a mensagem. O trabalho é longo, árduo, e se cada um fizer uma pequena contribuição, certamente estaremos mais próximos de um mundo mais igualitário. abraços!

Deixe um comentário