por Mariana Zambon Braga

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Imagem: Tumblr

Recentemente, vimos o Bono Vox, vocalista do U2 ser agraciado como um dos vencedores do prêmio “mulher do ano” da revista Glamour. Escrevi um texto sobre isso lá no Medium, que você pode conferir aqui. Hoje, no Facebook, surgiu uma postagem de um homem anunciando uma palestra “Maternidade ativa – os novos passos para uma nova maternidade”, que será dada por um coach de empreendedorismo materno. Mencionei que ele é homem? Pois é. Um homem, falando sobre maternidade ativa.  

Pois bem. Temos dois homens, um famoso, outro “comum”, ocupando espaços que deveriam ser reservados para mulheres. Um prêmio “Mulher do Ano” homenagear um homem é tão errado que chega a ser estranho ter que argumentar isso. Um homem palestrando sobre maternidade e empreendedorismo materno, também.  

Teve também um caso, ano passado, em que um debate sobre empoderamento feminino foi adiado após pressões nas redes sociais. O motivo: o evento teria apenas uma mulher e cinco convidados do sexo masculino.

Esses são exemplos pequenos dentre muitos outros que denunciam o apagamento da voz da mulher na sociedade. Existem muitas mulheres incríveis por aí que simplesmente não têm a chance de serem ouvidas, ou premiadas, ou de compartilharem seus conhecimentos com o mundo. Porque, frequentemente, quem organiza os eventos dá a desculpa de que não existem mulheres qualificadas, ou porque ainda existe no pensamento coletivo certa resistência em dar credibilidade ao que nós dizemos. Pergunte às cientistas e pesquisadoras como é difícil para elas.

Vocês se lembram de que, há algum tempo, as mulheres não podiam votar, trabalhar, estudar e nem sequer representar a si mesmas em papéis femininos no teatro? Este cenário só mudou porque as mulheres não se deixaram acomodar e passaram a ocupar os espaços e a protagonizar, de fato, suas vidas.

E a pergunta que fica, é: quem nos representa?

É um absurdo um homem receber um prêmio de “Mulher do Ano”. Não importa o quanto ele tenha contribuído para a promoção do empoderamento feminino, para mudar a vida das mulheres em situação vulnerável. Não importa. Ele não é mulher, e não deve ser incluído numa premiação que tem o óbvio objetivo de destacar MU-LHE-RES. Poderiam dar a ele o prêmio de “Homem do Ano”, que estaria tudo certo.

É igualmente bizarro ver um homem palestrando sobre os desafios da maternidade e o empreendedorismo materno. Talvez o sujeito seja casado e tenha filhos, alguém pode argumentar. Ok. Então, que ele fale sobre os desafios da PATERNIDADE. Ou sobre como é importante a mulher ter o apoio do marido nessas horas. Ou sobre como o pai também é responsável pelos filhos, IGUALMENTE. Sei lá, qualquer coisa do tipo.

Fica difícil viver em uma sociedade onde os homens têm mais espaço até mesmo para falar sobre coisas que competem às mulheres. Ou para receberem prêmios destinados às mulheres.

É por isso que a representatividade é mais do que urgente. Precisamos liderar e divulgar projetos e iniciativas que se propõem a dar visibilidade para as mulheres. Aparecer, mesmo. Fazer barulho. Parar de aceitar que nosso lugar é um espaço abstrato e escondido. Ajudar as mulheres que conhecemos a tomarem conta do mundo inteiro.

Quais são as mulheres incríveis que você conhece? O que elas fazem? Como você pode fazer para ajuda-las a se tornarem conhecidas e a serem ouvidas?

Representatividade importa, e muito. E esse movimento de mudança tem que começar entre nós mesmas.

Compre de mulheres. Negocie com mulheres. Escreva sobre mulheres. Entreviste mulheres.  Crie personagens mulheres. Contrate mulheres. Fotografe mulheres. Desenhe mulheres. Cante sobre mulheres. Leia livros escritos por mulheres. Apoie as mulheres. Promova as mulheres. Ajude as mulheres a crescerem, a serem tudo o que elas podem e desejam ser.

Isso não significa que os homens sejam inferiores, que devemos odiá-los, ou algo do tipo. Por favor, não sejamos simplistas. Significa apenas que já tem homem demais dominando esse mundo e ocupando até mesmo os espaços que não são deles. Está mais do que na hora de termos, pelo menos, a mesma visibilidade.

 

Mariana Zambon Braga
Responsável pela redação da Rede, é tradutora de inglês, formada em letras pela USP.
Atua nas áreas de: contratos, traduções técnicas, traduções literárias, artigos e monografias. Escritora por vocação e realizadora por necessidade.

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