- por Fernanda Vicente

Em um sistema que nos vende a maternidade compulsória e romantizada, onde a mãe deve abrir mão de tudo e viver apenas para os filhos, é importante falarmos sobre a maternidade de forma crítica, real e empática.

No entanto, para debatermos sobreo assunto, é necessário levar em consideração as peculiaridades e especificidades de cada mulher. O gênero nos une, mas raça e classe nos separam em um determinado momento.

Por exemplo: sou mulher, mãe, branca, classe média e com graduação.  Sei das opressões que sofro por conta do meu gênero. E sendo mãe, essa opressão aumenta. Mas reconheço e admito meus privilégios. Posso a qualquer momento sofrer violência de gênero. Mas nunca saberei o que é o combo racismo mais machismo e misoginia.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apesar de uma melhora nos índices entre 2000 e 2010 em relação à população afro-brasileira, o analfabetismo entre as negras ainda é o dobro se comparado com as brancas. Em relação à taxa de desemprego, em 2015 foi registrado que 17,4% das mulheres negras com ensino médio estava sem emprego, contra 11,6% da média feminina.

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A violência obstétrica, por sua vez, afeta boa parte de mulheres no país, como aponta o levantamento da Agência Pública. Segundo dados de 2010 da Fundação Perseu Abramo, uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência durante o parto como gritos, procedimentos dolorosos não autorizados ou informados, ausência de anestesia e negligência. Há também queixas de assédio sexual durante o pré-natal. Com as mulheres negras a incidência da violência é mais presente.

Na campanha "SUS sem racismo", do Ministério da Saúde, em 2014, 60% das vítimas de mortalidade materna no país são negras; somente 27% das mulheres negras tiveram acompanhamento durante o parto, enquanto do lado das mulheres brancas, esse número chega aos 46,2%.

Dialogarmos com diferentes realidades se faz necessário para uma maternidade crítica e política, para que possamos assim pontuar nossas demandas, que são muitas e, na maioria das vezes, ignoradas pelo sistema que prefere virar as costas e continuar explorando nossa força reprodutiva e de trabalho.

É preciso entender que nem toda mãe tem acesso a informações sobre parto, puerpério, amamentação. Nem toda mãe tem tempo para levar e buscar o filho na escola. Nem toda mãe pode optar por não mais trabalhar depois do parto. Nem toda mãe pode colocar o filho numa escola com uma pedagogia alternativa. Nem toda mãe tem tempo para cuidar dos filhos, principalmente quando essa mulher mora afastada dos centros urbanos e sai para trabalhar de madrugada muitas vezes para cuidar dos filhos de outras mulheres. Nem toda mulher tem acesso aos seus direitos mais básicos e a informações importantes.

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A construção de uma sociedade mais justa e igual também passa pelo olhar empático sobre a realidade de outras mulheres. Maternidade consciente não é apenas entendermos os mecanismos patriarcais em que estamos inseridas e tentarmos dessa forma lutar contra essa estrutura. É também olharmos com empatia para outras mães e procurarmos entender o que passa na vida dessa mulher, sem querer ser salvadora ou detentora da verdade, apenas entendendo que somos muitas, somos plurais e a consciência de uma maternidade crítica se dá a partir dai.


Fernanda Vicente é mãe, feminista, jornalista e idealizadora do projeto Mães no Enem & Mães na Universidade, uma ação que tem como objetivo apoiar e auxiliar mães estudantes em todo o país.


Imagens: London Scout - Unsplash

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