Desistir também é uma opção

– por Mariana Zambon Braga

Este não é um texto motivacional. Já existem muitos deles por aí, principalmente aqueles que dizem que “Desistir não é uma opção”. Como se chegar ao fim de alguma coisa, ou alcançar determinado objetivo, valesse a pena em qualquer situação. Mais ainda: como se fosse válido suportar toda e qualquer adversidade para sentir o gosto da vitória.

Em muitos casos, a persistência, o foco e a dedicação são, de fato, qualidades que nos impulsionam para as metas das quais temos plena convicção. Seguimos aguentando as dificuldades, engolindo os sapos da vida, trabalhando horas a fio, pois, no nosso íntimo, sabemos que o fim da jornada será válido. Ou, talvez, por não termos condições de analisar outras opções – quando, por exemplo, nosso emprego ou trabalho é a única maneira viável de sustento.

oleukena_givingupisnotanoption-2Supondo que estamos em uma situação na qual é possível escolher, o lema desistir não é uma opção nos estimula a continuar trilhando um caminho sem pensar em voltar atrás. Adotamos a mentalidade dos maratonistas, que seguem um percurso solitário e cansativo até a linha de chegada. E, como estes esportistas, descobrimos muitas riquezas ao longo do processo, transformando as cãibras, o suor e os quilômetros percorridos em aprendizado. A trajetória, em si, acaba sendo tão frutífera quanto a própria medalha. 

Mas e quando estamos em uma corrida sem fim? Ou melhor: e quando o percurso não nos leva a lugar algum e corremos em círculos? Nessas situações, talvez seja mais produtivo encarar a realidade e desistir, sem medo.

Antes de pensar em mergulhar de cabeça ou entregar-se de corpo e alma a um projeto ou a um objetivo a ser alcançado, precisamos ter certeza de que aquele é o lugar aonde queremos chegar. E nem sempre conseguimos ter a plena segurança de que estamos no caminho certo, não é mesmo? Em todos os contextos da nossa vida, no trabalho, nos relacionamentos e nos projetos pessoais, a dúvida nos visita constantemente.

Enquanto percorremos a estrada até o destino planejado, podemos começar a acreditar que aquilo não faz mais sentido. Neste caso, o que é melhor: permanecer num beco sem saída, num labirinto, ou dar alguns passos para trás e, com mais clareza, enxergar as novas possibilidades? 

É normal querer terminar algo que começamos. Dá uma sensação gostosa de dever cumprido, de conquista e merecimento. Por isso é tão difícil desistir. Pensamos: “Perdi tanto tempo da vida com isso, e agora vou abandonar?”.

Porém, ao invés de olhar para algo que você deixoleukena_givingupisnotanoption-3ou para trás como uma derrota ou uma desistência, você pode enxergar toda a bagagem que acumulou até aqui- seja em termos de qualificações e habilidades, seja em termos emocionais – e pensar em como ela será útil em qualquer outro caminho que você escolher trilhar.

Desistir de algo que não te faz bem ou que não te ajuda a crescer e melhorar não é sinônimo de fraqueza, mas de autoconhecimento e maturidade. Ao aceitar que nada nessa vida é permanente, que existem infinitos caminhos e que é, sim, possível (e às vezes, necessário) mudar de opinião, de foco e de objetivo, conseguimos nos cobrar menos.

Ser capaz de desistir é poder errar e reconhecer a força dos recomeços.

É preciso ter muita força para abdicar de um emprego sufocante ou explorador, para desapegar de um relacionamento abusivo, para seguir em frente e demolir as paredes dos becos sem saída e dos labirintos.

Desistir pode ser, sim, uma ótima opção. Só não podemos é desistir da vida, tão rica e repleta de possibilidades.


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Para ilustrar esse texto, escolhi a série de fotografias do artista alemão Ole Ukena. Ao olhar para esta instalação, somos confrontados, à primeira vista, com uma situação na qual o artista está prestes a terminar a obra. Uma escada, algumas letras, pregos, pincel e tinta ainda estão espalhados no chão, como se aguardassem pelo momento de serem usados. Ao olhar mais atentamente, percebemos que a frase “Giving up is not an option” (Desistir não é uma opção) deve ser lida à luz da ironia. O artista desistiu de terminar a instalação que recebe este nome e a obra é finalizada sem ser terminada.


Mariana Zambon Braga
Responsável pela redação da Rede, é tradutora de inglês, formada em letras pela USP.
Atua nas áreas de: contratos, traduções técnicas, traduções literárias, artigos e monografias. Escritora por vocação e realizadora por necessidade. Contato: redacao@feminaria.com.br

Entrevista – Sítio Graúna

 

No início deste ano, a Casa Feminaria firmou uma parceria com o Sítio Graúna, tornando-se um ponto de coleta de orgânicos. As cestas produzidas pela Roberta Pessoa e sua família são repletas de alimentos cultivados com muito amor e pensando na sua saúde e no meio ambiente. Ao encomendar uma cesta, além de ter uma alimentação mais saudável, temos a certeza de que estamos apoiando uma mulher que, com muita coragem, decidiu embarcar em uma grande jornada de empreendedorismo com sua família.

Conversamos com a Roberta e ela dividiu conosco sua trajetória, suas dificuldades e alegrias.

Confira abaixo a entrevista:

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Como você ingressou na agricultura familiar? Conte um pouco da sua história para nós.

A ideia de Ingressar na agricultura familiar caminhou junto com o meu relacionamento com Davis. Nos conhecemos em 2011,  ele vivia em São Paulo, em uma casinha com um jardim lindo nas Perdizes e passava uma parte do seu tempo livre cuidando daquilo tudo. Eu achei muito curioso, nunca tinha tido um contato com tantas plantas anteriormente. Era pedagoga, lecionava para crianças e não tinha tido, até então,  a possibilidade de cuidar de um jardim e me encantei. Descobri que era muito gostoso passar um tempo cuidando de plantas e era muito legal comer muita coisa que plantávamos em casa, em caixas de sushi, em vasos, jardineiras, pneus.

No final daquele ano, fizemos uma viagem que durou quase 30 dias de carro com a cachorra dele. Fomos até a Chapada da Diamantina, na Bahia, e depois descemos pelo litoral, foi incrível, a ideia de sair da cidade grande para viver em um lugar diferente, mais calmo, começou naquela viagem.

Em 2013, surgiu a ideia de plantar comida para alimentar pessoas da cidade. Essa onda de alimentos orgânicos delivery estava começando, mas ainda não tínhamos terra alguma, só a ideia, então passávamos horas pesquisando como plantar tal alimento, como fazer horta, etc. Demoramos um tempo para juntar a grana necessária para comprar algo. Em 2014, nasceu nossa filha Estela e a vontade de sair de São Paulo para termos o nosso tempo com ela e com a terra foi muito forte.

No final de 2014, mais precisamente 19 de dezembro de 2014, nos mudamos para o Sul de Minas, para uma cidade da qual nunca havíamos ouvido falar, não conhecíamos ninguém e não tinha rede elétrica no sítio que compramos. A casa estava só nos tijolos, mas estávamos tão felizes, radiantes e encantados com isso tudo (e ainda estamos) que não nos importamos com nada. Foi uma mudança muito brusca, muito intensa, mas muito bem vivida. Passávamos o dia atirando sementes em uma área que cercamos como área de preservação e que estava totalmente degradada, cercamos a mina d’água, pesquisamos e criamos uma fossa biodigestora e uma fossa séptica para não descartarmos nenhum resíduo na propriedade,  ainda estamos trabalhando intensamente em reflorestar a nossa propriedade, que era um grande pasto. É um trabalho minúsculo, muito demorado, a natureza leva um tempo para se regenerar. Plantamos mais de 300 árvores nativas, estamos plantando uma variedade bacana de frutas, formando uma floresta comestível, porém só teremos muitas delas produzindo quem sabe daqui a cerca de 5 anos.
Neste mês, estamos iniciando as entregas dos alimentos que produzimos aqui no sítio em parceria com outros pequenos produtores de alimentos orgânicos. Conhecemos diversas famílias que vivem da terra, trabalham de uma maneira extraordinária na agricultura familiar e nos inspiramos demais nessas pessoas.

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Roberta e sua família no Sítio Graúna

Qual foi o principal fator que te motivou a trabalhar com alimentos orgânicos?

Plantar é incrível, ter a oportunidade de observar o ciclo completo dos alimentos, da semente até a próxima semente é mágico. Acredito que a grande mudança da cidade para o campo foi que passamos a viver muito mais atentos às estações, as fases da lua, olhamos para o céu o tempo todo, nem precisamos de relógio pra trabalhar, conhecemos a agricultura biodinâmica,  estudamos a agricultura sintrópica do Ernest Gotsch e a agroecologia de Ana Maria Primavesi, vamos colocando isso tudo que lemos na prática em nossa propriedade e isso é muito gostoso. Descobrimos que amamos fazer isso, nos identificamos com esse caminho, é muito prazeroso cuidar da terra. E bastante trabalhoso, porém, poder passear pela nossa mata nativa e observar o crescimento das hortaliças, puxar e comer aquela folha de rúcula direto porque não tem veneno nem nada químico já nos mostra que escolhemos o caminho em que acreditamos.

Como é a sua rotina como agricultora? A família toda participa das atividades do sítio?sitio3

A rotina no campo é variada, algumas vezes trabalhamos intensamente colhendo os alimentos para levar para a cidade, organizando essa logística para que as pessoas recebam tudo fresquinho, gostoso ou trabalhamos formando novos canteiros, plantando árvores, mas também organizamos o nosso dia para que tenhamos o nosso ócio muitas vezes, coisa que era impossível vivendo na cidade grande. Além disso, temos uma criança pequena em casa, o que muitas vezes acaba organizando nossa rotina de maneira diferente.

As estações do ano também ajudam a organizar a nossa rotina. Por exemplo, agora estamos no fim do verão, extremamente quente no meio da tarde, então procuramos fazer todas as coisas nas hortas antes desse horário ou depois, acordamos cedo, irrigamos as hortas, precisamos observar como estão os alimentos, se estão bem, fazer as podas, alimentar as galinhas (elas vivem no sistema semi aberto), fazemos as mudas para plantar, pesquisamos  sementes diferentes ou trocamos – tudo isso somente nós dois. Contamos com a ajuda da minha mãe e de um vizinho que trabalha fazendo o serviço de podas.

O grande ponto no final do ano passado foi que conseguimos a instalação da internet via satélite na propriedade. Isso nos possibilitou o contato com as pessoas da cidade que querem comprar nossos alimentos. Antes, não tínhamos esse acesso, o sinal de celular é bem ruim, e nenhuma empresa topou instalar internet via rádio no nosso bairro, se não tivéssemos essa opção, possivelmente eu nem conseguiria responder esta entrevista.

O trabalhador rural quer tecnologia, precisa desse acesso, para estudar, se informar, se divertir, ganhar dinheiro, e infelizmente ainda é uma alternativa bastante cara comparando aos ganhos de muitos trabalhadores rurais. Mas já consigo enxergar quem sabe daqui alguns meses uma melhora nesse sistema.

A parceria do Sítio Graúna com a Feminaria começou este ano. Quais são as suas impressões até agora, tanto da Rede quanto deste projeto de ponto de coleta?

Nossa parceria se iniciou em janeiro por meio de uma amiga em comum que me apresentou à casa. A Casa Feminaria estava em busca de alguma mulher produtora de alimentos para formar o ponto de coleta de orgânicos e foi perfeito, pois havíamos acabado de comprar o carro para as entregas e estávamos planejando toda a logística. Já formamos clientes fiéis na Casa, que estão satisfeitas em receber nossos produtos e só temos que agradecer porque é uma iniciativa maravilhosa que está beneficiando diversas mulheres. A casa é um espaço impecável, rola muitas formações interessantes, muitas vezes gostaria de estar presente para participar, mas acabo conhecendo pela rede mulheres incríveis que produzem coisas fantásticas ou que oferecem um trabalho bacana. A Ana e a Maria Carolina são sensacionais, trabalham intensamente para que a Casa funcione maravilhosamente, só tenho elogios e imagino um crescimento interessante com o ponto de coleta dos orgânicos.

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Cesta de orgânicos do Sítio Graúna

Na sua opinião, qual é a maior dificuldade para quem deseja ingressar no ramo da agricultura familiar? Quais foram os maiores obstáculos que você enfrentou e as maiores alegrias?

A maior dificuldade para quem deseja ingressar no ramo da agricultura é conseguir subsídio para iniciar na área. Até agora não recebemos nenhum incentivo do governo para implementar nada, tudo o que pesquisamos ou fomos atrás é muito burocrático, mal informado ou necessitava de algo que só quem já comercializa ou possui empresa legalizada acaba conseguindo fazer parte de algum plano de investimento.
A mudança de governo extinguiu o MDA- Ministério do Desenvolvimento Agrário, que colaborava com um suporte importante para a agricultura familiar e com o plantio orgânico.  Também tem a questão da certificação que é cara, mesmo a participativa, então o agricultor necessita ter condições para bancar isso tudo, se adequar ao programa e pagar isso mensalmente. Infelizmente, sei que para muitos trabalhadores rurais é bem complicado.

Nossa maior alegria é que agora estamos começando a enxergar o reconhecimento do trabalho no campo, que ainda nem é um trabalho de tantos anos, mas que já sentimos diariamente, vendo a mata nativa regenerada abrigando animais muitas vezes extintos, observamos nossa mina d’água funcionando perfeitamente, comercializando nossos alimentos para pessoas que curtem e apoiam muito esse movimento. Ver esse processo completo de cuidar da terra, plantar e comercializar o alimento direto para o consumidor na cidade é muito bacana e só caminha para crescer.

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Deixe um recado para as nossas leitoras!

Eu gostaria de agradecer à Casa Feminaria por todo o suporte, ajuda, troca de dias de mensagens, isso tudo não tem preço! Para as associadas, eu tenho que agradecer também porque elas acabam colaborando com a movimentação da renda de muitas mulheres. Quando a gente pensa em comprar algum produto e escolhe algo produzido por uma mulher, muitas vezes que está cuidando do filho em casa ou que está desempregada, ou ainda iniciando um trabalho autônomo, é um apoio real, concreto, porque não adianta apenas elogiar e curtir o trabalho dela, é preciso consumir dela, apoiar gerando renda. Observo uma conscientização muito grande da economia feminina e estou muito feliz em agora fazer parte dela, tanto como consumidora, como produtora rural.

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A Casa Feminaria é um Ponto de coleta dos orgânicos produzidos pela Roberta Pessoa e sua família no Sítio Graúna.

São dois tipos de cestas:

Cesta do sítio básica: com alimentos livres de agrotóxicos diversos e frescos!

Cesta do sítio especial: com os alimentos diversos e frescos e mais 5 produtos artesanais deliciosos do Sul de Minas, sem corantes, xaropes ou qualquer outro ingrediente deste tipo.

-️ É possível substituir algum alimento ou adicionar outros em seu pedido!

-️ Os alimentos são enviados em uma ecobag de algodão resistente para que sejam devolvidas na próxima data de coleta.

– Cestas limitadas.

Façam suas encomendas pelo e-mail: atendimento@cestadositio.com.br ou pelo telefone: (35) 99209 9079

Acompanhe o Sítio Graúna no Facebook e no Instagram.

Como a auto-sabotagem pode estar atuando na sua vida

– Por Gisele Ventura

A auto-sabotagem é um mecanismo muito comum, que opera de modo inconsciente fazendo com que puxemos nosso próprio tapete. Curiosamente com o intuito de nos proteger e nos manter na zona de conforto.

Como funciona a auto-sabotagem?

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Imagem: Raquel Aparicio

Após tantos envios de currículos, entrevistas, estudo e preparo, finalmente A. consegue o emprego dos seus sonhos. Logo no início, ansiosa para colocar seus potenciais em ação e mostrar a que veio, ficou com a saúde abalada. Tentou resistir, compareceu a empresa assim mesmo durante alguns dias, até que acordou tão fraca que precisou ser levada ao pronto socorro. O diagnóstico não foi tão grave mas exigiu uma semana em repouso.

Aniversário de dez anos de casamento, JP resolve fazer uma surpresa para sua esposa e compra um lindo anel de brilhantes em uma famosa joalheria. No estacionamento do shopping, coloca o pequeno pacote em cima do capô do carro enquanto procura a chave nos bolsos. Alguns minutos depois, já na rua se dá conta de onde havia deixado o presente. Tarde demais.

R., uma mulher bonita, profissional reconhecida, criativa, cheia de vida não consegue encontrar um parceiro para um relacionamento satisfatório. Conhece muitos homens, por meio de apresentações de amigos, encontros profissionais, aplicativos, eventos. Mas, em algum momento da relação percebe que tem uma característica em comum: parecem estar procurando uma mulher para sustentá-los.

Situação comum: Mulheres que gostariam de trabalhar mas que acabam ficando em casa após o nascimento dos filhos, até que não conseguem se recolocar mais (salvo as que realmente fizeram esta opção de forma consciente) muitas vezes estão sabotando suas carreiras.

Exemplos não faltam a respeito de auto-sabotagem. A auto-sabotagem é um tema tão presente nas nossas vidas, mas ao mesmo tempo tão difícil quase impossível de nos darmos conta. Por quê?

Porque ocorre em um nível inconsciente, tão profundo da nossa psique que não somos capazes de enxergar a olho nu. E, falar em auto-sabotagem, no exemplo de uma doença física, que aparece nos exames, parece até loucura não é?

“Como assim eu estaria provocando esta doença em meu corpo?”, você pode estar se perguntando.

Sim, concordo que é um assunto muito delicado e pode ser até mesmo soar como ofensivo ou leviano para quem sofre de alguma doença. Então, reforço que não necessariamente todo adoecimento é provocado pelas emoções. Existem fatores genéticos, doenças herdadas, ou geradas pelo ambiente, hábitos ou mesmo pela toxicidade dos alimentos.

Mas o inconsciente sim tem o poder de desencadear crises, agravar ou abrandar o problema. E, em algumas situações pode ser a fonte causadora.

A auto-sabotagem se disfarça de tantas formas, que parecem ter explicações tão racionais que realmente fica difícil visualizar que podemos estar sabotando nosso sucesso, saúde, relacionamentos e bem estar de modo tão imperceptível.

Mas afinal, porque no auto sabotamos?

Cada caso é um caso, não tem como generalizar, o mundo psíquico é vasto e extenso, atemporal. Composto pela nossa história, pelas nossas interpretações dos fatos da vida, nossos registros, memórias.

As pessoas se sabotam por inúmeras razões, mas que só podem ser compreendidas com um trabalho profundo de autoconhecimento. A grosso modo podemos conjecturar que é uma forma do ego se proteger de situações ameaçadoras. Para clarificar, segue alguns motivos comuns:

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Culpa:

Crescemos sob a sombra da culpa. Seja vinda da religião: “se não for bonzinho (a) vai para o inferno.” “Tem que colocar a necessidade dos outros antes da sua.” etc.

Conheci uma pessoa que pedia para o filho de 8 anos, todas as noites refletir sobre seus pecados.

Ou culpa cultivada no ambiente familiar: “tem que ser boazinha/bonzinho, responsável, dar a sua vez, cuidar dos seus irmãos pois você é mais velha/velho, compartilhar seus brinquedos ou doces, tem que ter as melhores notas”.  Muitas crianças sentem-se culpadas por brigas em casa e separação dos pais.

É importante salientar que não se trata necessariamente de pais ou cuidadores mal intencionados, mas sim a forma como os conceitos são passados de geração em geração. Muitas vezes com o intuito de educar ou proteger os filhos de perigos e exposições, afinal foi a forma com que estas famílias aprenderam a educar.

A culpa também tem uma função importante no ser humano e na sociedade, imagine se não tivéssemos culpa? Que caos que seria!

A questão é: como a culpa atua na auto-sabotagem. A culpa é sinal de não merecimento. Então se você, inconscientemente acredita que não merece algo bom, sucesso profissional, um relacionamento, uma família, um carro ou casa novos, uma viagem, amigos, tem que dar um jeito de colocar a perder certo?

Inveja:

Apesar de ser um sentimento tão condenado, todos nós, de uma forma ou de outra já sentimos inveja. Seja na infância, adolescência ou vida adulta. Em algum momento acreditamos que seria nosso direito ter o que pertence ao outro. Que o outro não deveria ter conquistado aquilo que cabia a nós. Quem nunca chegou a torcer em silêncio contra o sucesso de outra pessoa, ou não fez uma fofoquinha maldosa?

Assim sendo, quando sentimos inveja, acreditamos também que não podemos possuir algo bom. Pois, da mesma forma que desejamos secretamente que o outro perca sua conquista, acreditamos que como “castigo” perderemos a nossa também. Parece complexo, distante ou surreal demais? Sim. Assuntos do inconsciente são muito profundos para serem tratados em um texto sucinto.

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Síndrome do Impostor:

A síndrome do impostor é um nome um tanto quanto pitoresco e nada científico dado a um sentimento de incompetência e ineficiência. Ou seja, pessoas que acreditam que no fundo são uma fraude. Vivem com medo de que descubram sua “verdadeira face”. Muitas vezes são pessoas bem intencionadas, competentes, capazes, éticas mas não se apropriam de suas capacidades devido à baixa autoestima, e pouca confiança em si mesmas.

Apesar de não ser de fato uma “síndrome” pois não consta em manuais da medicina, é um estado muito comum que impede a pessoa de crescer e evoluir. Esse sentimento, o medo de “ser descoberta” a impede de alçar voos mais altos, decolar na carreira, na vida pessoal. Então, de alguma forma, o indivíduo dá um jeito de colocar tudo a perder antes que isso aconteça.

Ganhos Secundários:

Situações novas muitas vezes são desconfortáveis, nos tiram de um lugar conhecido. Talvez não tão bom, mas familiar. O sucesso, o novo, por sua vez nos traz um certo desconforto, o medo do desconhecido. Quais serão as novas responsabilidades? Que tipo de situações negativas terei que lidar quando meus desejos se realizarem?

A questão é que muitas vezes temos um ganho em permanecer em uma situação desfavorável.

Quando estamos doentes recebemos cuidados, atenção. Nos livramos de afazeres chatos, de responsabilidades.

Quando ficamos no lugar de “coitadinhos” acreditamos que atraímos a complacência ou empatia das pessoas. Ao contrário de quando ocupamos uma posição de destaque, de sucesso, tememos a inveja, receamos perder a companhia ou o apoio de determinadas pessoas. Ou, as pessoas podem começar a nos procurar para pedir ajuda.

O sucesso traz desafios, responsabilidades, trabalho. É necessário mantê-lo, cuidar da imagem, vigiar suas atitudes. Dá trabalho! Nem sempre desejamos pagar o preço.

Mas lembrem-se, tudo isso ocorre em um nível inconsciente, ou seja, invisível a olho nu!

Medo de comprometer o relacionamento ou a estabilidade familiar:

Quando as pessoas mudam ou saem da sua zona de conforto, estas mudanças podem interferir na dinâmica do seu ambiente. Por exemplo: a mulher vai para o mercado de trabalho e sai do papel de dona de casa, precisa contratar pessoas para dar conta da rotina doméstica ou cuidar das crianças, ou mesmo contar com a ajuda de familiares. Este trabalho pode implicar em viagens ou eventos que talvez não seja do agrado do cônjuge. Ou o restante da família pode julgá-la.

Algumas mudanças podem fazer com que cônjuges ou outros familiares fiquem insatisfeitos seja por sentirem-se ameaçados, com inveja ou sobrarão mais atividades para eles de modo que perderão certas comodidades. Inibida por essas possíveis reações negativas, a pessoa pode retroceder ou fazer com que seu projeto não dê certo por inúmeras razões que só o inconsciente é capaz de criar. Mas como ela mesma não se dá conta, logo arruma várias explicações e justificativas plausíveis e racionais para tanto.

Amelie - Nino & Amelie

Desejos contraditórios:

É uma situação muito comum. Algumas vezes desejamos exatamente o oposto daquilo que demonstramos ou lutamos para acontecer. Seja para atender uma exigência da sociedade, da família, ou para adquirir status e prestígio (pessoas com baixa autoestima).

Exemplos: perder dia da prova de vestibular, ou processo seletivo. Desejo de engravidar mas sofre abortos naturais sucessivos. Fazer uma má apresentação do TCC ou tese de mestrado.

Um executivo pode cometer um erro grave que venha a acarretar prejuízos para a empresa, vir a ser demitido e ficar arrasado. No entanto, já está há um tempo infeliz e desejando mudar os rumos da sua vida profissional. Claro que ele não queria prejudicar a empresa tampouco sua carreira, pelo menos de forma consciente.

Em um dos exemplos iniciais, o homem que deixa a joia que seria presente para sua esposa no capô do carro. Como estaria este relacionamento? Será que ele realmente desejou dar este presente a esposa?

Vingança:

Sim, as pessoas podem sabotar sua realização pessoal, sua saúde, seus projetos para punir ou se vingar de alguém.

Se mantem em uma posição de doente ou dependente para que algum familiar banque suas despesas, fique a sua disposição para o que for necessário.

Seja por mágoa, raiva dos pais ou cônjuge ou mesmo dos filhos, algumas pessoas se colocam nesta posição, prejudicando acima de tudo a si mesmas. Não se libertam e não libertam os outros envolvidos do encargo.

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O assunto auto-sabotagem é muito amplo, a intenção deste texto foi apenas arranhar a superfície de um tema tão rico e fascinante. Fascinante e ao mesmo tempo trágico e real, muito real.

Tal termo não é de uso científico da psicologia, mas utilizado pelo senso comum. No entanto, são encontrados na literatura de estudiosos consagrados como Freud, C. G. Jung, Melanie Klein entre outros, referencias claras a situações de auto-sabotagem mas com diferentes nomenclaturas.

Como estes autores abordam basicamente a vida psíquica, o inconsciente, praticamente todos os casos clínicos e seus transtornos tem conteúdos relacionados a auto-sabotagem.

Talvez você esteja se perguntando nesse momento onde e como a auto-sabotagem se aplica a você, na sua vida. Se você percebe que ocorrem situações repetitivas que te prejudicam ou te impedem de alcançar seus objetivos, é bem provável que esteja nesse ciclo. Para detectar e romper e assim adquirir mais autonomia sobre sua vida, o caminho é um trabalho profundo e paciente de autoconhecimento.

Pode causar medo, ansiedade e há possibilidades de surgirem várias resistências e empecilhos pelo caminho para que fique onde está. Pelas mesmas razões mencionadas no decorrer do texto. Mas, no que tange ao autoconhecimento o lema é: “quebre as pontes que atravessar!”.

Gisele Ventura Essoudry

Psicóloga clínica especialista em Saúde Mental pela UNIFESP, coach e orientadora profissional. Em razão da também graduação em Marketing, trabalhou por quinze anos no mundo corporativo, nos segmentos de varejo e bancos, sempre na área comercial o que contribuiu muito para entendimento de questões relacionadas ao ambiente empresarial. Criadora do site de conteúdo www.autenticalab.com.br, ministra palestras e workshops sobre desenvolvimento pessoal. Dois e-books publicados: “Com autoestima é melhor!” e “Amor e relacionamentos, muito além do óbvio!”. Consultora da Feminaria, atende às associadas da Rede com agendamento pelo telefone (11) 2737-5998

 

* Texto originalmente publicado no site do Autentica Lab.

* Imagens: Cenas do filme “O fabuloso destino de Amelie Poulain”

Entrevista – Cafezim e Prosa: Projeto Mulheres Viajantes

Quem nunca deixou para trás um projeto de viagem por medo de cair na estrada sozinha? Por que a sociedade ainda torce o nariz para mulheres que se mostram independentes e que encaram suas jornadas e seus passeios sem ter um homem ao lado?

Pensando nessa e em outras questões, a Thaís Carneiro, em seu blog Cafezim e Prosa, criou o Projeto Mulheres Viajantes, que reúne relatos das corajosas mulheres que se aventuram pelo mundo afora. Conversamos com ela para saber mais sobre essa iniciativa.

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Como surgiu o projeto Mulheres Viajantes?

O projeto surgiu a partir do incômodo perante a cobertura midiática do assassinato das turistas argentinas Maria José Coni, de 22 anos, e Marina Menegazzo, de 21, no Equador, em que elas foram culpabilizadas, acusadas de estarem se colocando em situações de risco e de certa forma, legitimando o desfecho da história. Outro ponto que me chamou a atenção foi a recorrente menção à ideia de que elas estariam viajando sozinhas por não estarem acompanhadas de um homem e assim, contribuindo para a insegurança da sua viagem. Diante deste incômodo, decidi lançar o projeto como um discurso contrário, colocando que nós, mulheres, não devemos ser culpabilizadas enquanto vítimas, que temos o direito de ir e vir como todos.

Como foi a recepção/ participação no projeto por parte das mulheres que compartilharam seus relatos?

A recepção foi bem bacana, muitas mulheres se sentiram lisonjeadas pelo convite e com um espaço importante de fala, de exposição de suas experiências. Por muitas, a participação foi entendida como um ato político, de afirmação do gênero feminino em espaços que não são tidos como “lugar de mulher”, pois é quando nos confrontamos com o espaço público.

O engajamento de participação se ampliou com o anúncio do I Mulheres viajantes vai às ruas, encontro realizado no final de 2016, em São Paulo, para trocarmos experiências de viagem em uma roda de conversa.

A gente sabe que muitas mulheres sentem vontade de viajar, mas acabam desistindo por não terem companhia (e, consequentemente, por medo). Na sua opinião, quais medidas podemos tomar para vencer o medo e colocar o pé na estrada sem depender de ninguém?

A autorreflexão é necessária para avaliarmos até que ponto esse medo faz sentido e como ele pode estar restringindo suas ações. Pensando em estratégias práticas, o que costumo fazer é: ficar em quartos coletivos femininos em hostels; deixar os meus números de vôos/horários de ônibus e trem com os meus familiares bem como os contatos das pessoas com as quais vou me encontrar mesmo que seja alguém do Couchsurfing; reservar uma parte do dinheiro na doleira e outra trancada na mala; pesquisar e estudar bem o seu local de viagem tendo em vista hábitos/cuidados/locais perigosos através de blogs e relatos de outros viajantes; comprar com antecedência a hospedagem e o transporte, pois caso eu seja roubada, terei já tudo organizado.

Você já sofreu assédio durante uma viagem que fez sem uma companhia masculina (sozinha ou com amigas)? Como você lidou com estas situações estando longe de casa?

O assédio masculino, seja de cunho moral ou sexual, infelizmente é cotidiano para nós, mulheres. Em viagens, nunca sofri uma situação extrema de violência, apenas o assédio de olhares e uma palavra ou outra que insinuava algo a mais. Minha reação era seguir reto e não estabelecer contato visual.

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Na sua opinião, existe algum roteiro que seja “mais seguro” para a mulher que deseja começar a viajar sozinha, mas que ainda tem receio?

Acredito que a segurança vem mais de você do que do lugar. Para a minha primeira viagem sozinha de tudo, decidi voltar ao lugar que fiz intercâmbio, Buenos Aires, porque já conhecia a dinâmica da cidade e assim, podia me movimentar com mais tranqüilidade. Porém, acredito que se o teu medo é tão forte a ponto de te paralisar, vá para algum lugar que represente sua zona de conforto. Tenha em mente que o medo nunca passa. Pra mim, ele é cotidiano e é um instinto de sobrevivência mesmo, infelizmente.

O Primeiro Encontro Mulheres Viajantes vai às ruas teve uma ótima repercussão. Quantas mulheres participaram? Já tem alguma data marcada para o futuro? Quais são os próximos passos para o projeto?

Foi uma experiência incrível autogerida, em que estabelecemos uma roda de conversa com mulheres que em sua maioria, não se conhecia. Como o evento durou quase cinco horas, estimo a circulação de quarenta mulheres.

Teremos um novo encontro em São Paulo, no dia 04 de março, sábado, a partir das 14h, nos jardins suspensos do Centro Cultural São Paulo, próximo à estação Vergueiro. Além disto, estou organizando um encontro ainda esse semestre no Rio de Janeiro e um curso sobre Mulheres Viajantes na cidade maravilhosa.

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Aproveito para convidar a todas as mulheres viajantes que desejam compartilhar conosco suas experiências de viagem sozinhas ou entre mulheres a escreverem para cafezimeprosa@gmail.com e combinarmos a publicação na coluna. O projeto é coletivo e existe por conta da colaboração de vocês. Caminhando juntas, nos fortalecemos.

Acompanhe o projeto no blog Cafezim e Prosa , na página do Facebook e pelo Instagram.

Mentoria: O que é e quando buscar

–  por Ana Bavon

Numa definição extremamente simples: mentoria é um método de transferência de expertise (conhecimento).  A palavra mentor é identificada no poema grego A Odisseia de Homero, no qual o Mentor é um sábio e amigo de Ulisses a quem ele confia o próprio filho. Porém, somente em 1699 quando o escritor francês François de Salignac Fenelon fez uma releitura da obra de Homero é que o Mentor ganhou destaque.

O processo de mentoring nasceu dentro das empresas. Já há algum tempo, grandes corporações costumam designar profissionais mais experientes para conduzir os mais jovens em atividades que deverão exercer no futuro. Esse modelo extrapolou os limites das empresas e ganhou o mundo, o que é ótimo para nós – já que trocar experiência é algo que podemos fazer em qualquer ambiente!

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Imagem do filme O Diabo Veste Prada

Não existe uma estrutura pré-determinada para que a mentoria aconteça. A mentora realiza tal orientação em períodos que podem ser em reuniões, almoços, cafés da manhã, happy hour ou até mesmo na casa da mentorada (cliente), possuindo características de treinamento e acompanhamento profissional, buscando sempre a realização das metas estabelecidas de forma eficiente.

Mentoring e coaching são duas atividades relacionadas, porém, muito diferentes. Ao contrário do que acontece no mentoring, a coach não precisa ter experiência na área de trabalho da cliente e em algumas áreas do coaching também não é possível que a coach aconselhe ou dê soluções para problemas específicos relacionados com a carreira da cliente; o processo tem princípio, meio e fim, sendo que pode durar entre 3 a 6 meses.

mentoring é um processo que não tem um tempo estabelecido para o seu término, é necessário que a mentora tenha conhecimento (quanto maior melhor) na área de busca da sua cliente. Além disso, a mentora pode e deve aconselhar sua cliente na medida de seu conhecimento. O processo de mentoria é bastante dinâmico e livre, de maneira que cada bate papo deve ser um convite ao despertar de consciência da mentorada (cliente), gerando mudanças.

Quando buscar mentoria:  Você está começando o seu negócio? Você é uma empreendedora em início de carreira e não entende a necessidade de dedicar uma parte do seu investimento a uma mentoria de qualidade? Você precisa se aprofundar no que ocorre com sua marca? Se a resposta foi sim, você precisa avaliar, pois talvez este seja o momento exato de buscar mentoria e compreender melhor os seus benefícios.

É ponto pacífico no ambiente empreendedor (como cita a Endeavor – principal ONG de apoio a empreendorismo do Brasil) que a mentoria é uma escolha acertada para quem empreende. Assim sendo, o ideal é buscar mentoria assim que você tiver uma ideia de negócio. Existem muitas formas do seu intento evoluir, algumas mais assertivas do que outras. Muito do que vejo são empreendedoras buscando mentoria para encontrar respostas para um tema específico do seu negócio, porém, no decorrer do processo podemos descobrir juntas que as limitações na verdade são outras, e isso é feeling. Uma boa mentora precisa utilizar sua expertise pra dissecar os temas propostos pela mentorada (cliente) e direcionar livremente os esforços para que a mentorada consiga atingir seus objetivos.

Se você ainda tiver alguma duvida sobre mentoria – suas aplicações e benefícios – mande suas perguntas nos comentários.

Podemos não ser capazes de tudo, como de fato não somos, mas somos todas capazes de algo, e é esse algo que precisamos nos dedicar a descobrir.

                                                                        Ana Bavon

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ANA CAROLINA MOREIRA BAVON

Fundadora da Rede é Consultora jurídica que atua exclusivamente na área de outsourcing e gestão estratégica. Com mais de 13 anos de experiência, 70% deles atuando no ambiente corporativo em escritórios de grande porte. Pós graduada em Direito Civil e Direito Processual Civil, Estratégia e Consultoria Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas. Mentora estratégica com certificação internacional em Mentor Talks pelo Creative Learning Institute.

Breves ensinamentos de “Estrelas Além do Tempo”

– por Mariana Zambon Braga

O filme Estrelas Além do Tempo conta a história das três personagens reais Mary Jackson, Dorothy Vaughan e Katherine Johnson. É sucesso de bilheteria e conseguiu três indicações ao Oscar: melhor atriz coadjuvante para Octavia Spencer, melhor roteiro adaptado e melhor filme. Eu, particularmente, me emocionei bastante ao assistir à trajetória destas mentes brilhantes, que só foram receber o devido crédito anos mais tarde. E eu preciso frisar aqui: se não fosse pelo esforço delas, talvez toda a missão espacial dos EUA naquela época tivesse sido um fracasso. 

O cenário enfrentado por elas não poderia ser mais desafiador. Anos 1960. Sul dos Estados Unidos – uma das regiões em que a segregação racial era uma dura realidade. E, ainda por cima, eram mulheres negras, trabalhando na NASA, um ambiente composto quase que majoritariamente por homens brancos.

O que elas conquistaram não foi pouca coisa não. Mary Jackson foi a primeira engenheira negra da NASA. Dorothy Vaughan tornou-se, com muita perseverança, a primeira supervisora negra da National Advisory Committee for Aeronautics (NACA), a agência predecessora da NASA. Katherine Johnson foi uma brilhante matemática, premiada pelo presidente Obama com a Medalha da Liberdade Presidencial, a maior honra que um civil pode receber. Sem contar que o próprio John Glenn, astronauta que fez o primeiro voo orbital dos EUA, só aceitou a missão após Katherine confirmar os cálculos de seu retorno à Terra.

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Acho que é justo dizer que elas foram muito importantes para a história, não só dos EUA, como da humanidade. E, como toda boa história, real ou fictícia, este filme me trouxe alguns ensinamentos:

  1. Persistência e posicionamento são fundamentais. Ao longo da narrativa, Mary, Katherine e Dorothy se encontram em situações na quais poderiam ter recuado ou abaixado a cabeça. Poderiam ter desistido de seus sonhos ou de suas carreiras, pois as condições que se apresentavam eram muito adversas. Mas elas não se submeteram.  Não aceitaram o “mundo como ele é”. Lutaram pelo direito de manter seus trabalhos, de estudar, ter uma remuneração digna, ou de simplesmente poder usar o banheiro no mesmo andar onde trabalhavam. Graças ao posicionamento e à firmeza das três, elas conseguiram melhorar não só suas próprias condições de trabalho e de vida, mas a de muitas mulheres que trabalhavam com elas.
  2. Precisamos nos preparar para as inovações tecnológicas e para as novas tendências.  Dorothy era líder das computers – matemáticas que faziam os cálculos, manualmente com uma calculadora, muito antes do advento dos computadores. Por causa dos atritos entre os EUA e a União Soviética, a chamada corrida espacial levou a NASA a comprar um daqueles computadores enormes da IBM. Dorothy percebeu, então, que teria que aprender a programar aquilo, ou ela e sua equipe se tornariam obsoletas. Além de aprender a linguagem de programação do IBM, ela também ensinou suas colegas e garantiu que todas pudessem manter seus empregos. Ao invés de temer a tecnologia, devemos compreendê-la e nos adaptar aos novos rumos das nossas profissões e de nossos ofícios.
  3. Um bom líder enxerga o ser humano. Quando Katherine consegue uma vaga na equipe dos matemáticos responsáveis por mandar o homem para o espaço, ela começa a trabalhar com Al Harrison, um cara exigente, mas que sabia que liderança não tem a ver com mandar. Graças a Al, Katherine não precisou mais andar quilômetros para poder ir ao banheiro, pode participar de reuniões estratégicas e trabalhar mais ativamente, desenvolvendo seu potencial e contribuindo da melhor maneira para a equipe. Se um líder não reconhece que seus colaboradores são humanos, não sabe enxergar suas necessidades de trabalho, então ele é apenas uma pessoa com poder hierárquico.
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Imagem: Divulgação

Estrelas Além do Tempo é um filme inspirador, não no sentido motivacional, porque não tem aquela coisa de “você pode tudo se apenas for otimista e determinada”. Nada disso. É inspirador porque mostra o resultado do trabalho árduo e da dedicação destas mulheres em busca de seus sonhos e objetivos profissionais e intelectuais. Mostra que, sem atitudes, sem uma real ação transformadora, nossos projetos dificilmente serão realizados.

Que possamos nos espelhar na coragem dessas cientistas incríveis!

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Mariana Zambon Braga
Responsável pela redação da Rede, é tradutora de inglês, formada em letras pela USP.
Atua nas áreas de: contratos, traduções técnicas, traduções literárias, artigos e monografias. Escritora por vocação e realizadora por necessidade.

A prática torna as coisas possíveis

– por Mariana Zambon Braga

[cml_media_alt id='589']Imagem: William Schneider[/cml_media_alt]
Imagem: William Schneider
Estamos acostumadas a ouvir a máxima “A prática leva à perfeição”, que nos leva a crer que, um dia, seremos perfeitas em alguma coisa que fazemos. Seja nos esportes, na música, na carreira profissional, parece que essa é a única frase motivacional utilizada, ou válida, para nos estimular a seguir em frente.

Será que essa frase nos ajuda, ou nos intimida?

Criamos expectativas de que a perfeição está lá no horizonte, e que um dia atingiremos tal estado de elevação, basta ter determinação e focoMas, sejamos realistas: alguma coisa nessa vida é perfeita? Não. E nós também nunca seremos. 

Reconhecer isso está bem longe de ser um pensamento pessimista. É possível, sim, atingir um alto nível de excelência através da prática ao longo do tempo, da dedicação e da persistência, do trabalho concreto e árduo.

Ainda assim, eu preciso enfatizar uma coisa para você: A prática não leva à perfeição, e sim ao progresso. Quanto mais nos dedicamos a uma atividade, mais mergulhamos no que significa, de fato, realizar aquilo. E isso não tem nada a ver com a perfeição.

Eu só consegui compreender este conceito, de forma mais aprofundada, quando voltei a escrever. Meu desejo era produzir a mais brilhante obra literária do século XXI, mas negligenciava a prática diária e os exercícios de escrita. Aguardava uma inspiração do universo, para depois começar a escrever. Para ser sincera, nem tinha certeza sobre o que gostaria de falar. E, antes mesmo de sentar para redigir alguma coisa, eu já desistia, porque sabia das minhas limitações, e achava impossível criar qualquer coisa relevante.

Quando passei a escrever todos os dias, procurando aperfeiçoar o meu conhecimento, meu estilo, a maneira como interajo com as emoções, as descrições e ambientações, parece que um novo mundo se abriu. Adquiri confiança em mim e na minha mente. Consegui enxergar as minhas limitações, para poder trabalhar nelas, ou aceitá-las com humildade e compaixão. E, desde então, não parei de praticar e estou produzindo mais textos do que nunca na vida. Não porque quero ser a escritora perfeita, mas porque desejo superar meus próprios limites e compreender melhor essa minha vocação. Em resumo, me tornei consciente do que é escrever. E levei trinta e quatro anos para chegar aqui.

Em tudo na vida, a estrada do aprendizado é longa. E isso não quer dizer que, um dia, chegaremos à perfeição sublime e imaculada. Quer dizer que seremos melhores e mais capazes de compreender seja lá o que for que estejamos praticando.

Por isso, antes de desistir no meio do caminho, pois a perfeição parece distante e inatingível, lembre-se de que “progredir” e “aperfeiçoar” são mais importantes do que “ser impecável”. Defina suas metas, busque sempre melhorar, mas levando em conta as possibilidades reais da sua vida. Quanto mais a gente se perde em objetivos irreais e inatingíveis, fica muito mais difícil dar o primeiro passo.

Seja gentil consigo mesma. Esqueça a perfeição e lembre-se que a prática é o que te torna melhor, mais preparada, mais confiante, capaz de realizar a sua atividade profissional, ou o seu propósito de vida, de forma mais consciente. E é isso o que realmente importa.

 

Mariana Zambon Braga
Responsável pela redação da Rede, é tradutora de inglês, formada em letras pela USP.
Atua nas áreas de: contratos, traduções técnicas, traduções literárias, artigos e monografias. Escritora por vocação e realizadora por necessidade.