Você tem ideias para ganhar dinheiro, mas já se perguntou se tem mercado para elas?

Você tem ideias para ganhar dinheiro, mas já se perguntou se tem mercado para elas?

– por Ana Carolina Moreira Bavon

Eu sei que é duro ouvir isso, principalmente vindo de uma pessoa que diz o tempo todo que você deve ser protagonista da sua vida, mas para o assunto que vamos desenvolver agora o que você quer – de fato – não importa nem um pouco.

Para quem você empreende? A resposta a essa pergunta diz muita coisa sobre o seu negócio e a saúde dele. Vamos usar o exemplo de duas empreendedoras fictícias que vão nos ajudar a ilustrar esse artigo.

Valéria – 35 anos, fisioterapeuta, dedicou-se a carreira formal por 10 anos, mas apaixonada por bolsas que era, decidiu importar bolsas de marcas incríveis e vende-las no Brasil. O negócio da Valéria tem 1 ano e 6 meses e ela procurou a Feminaria com um problema bastante comum: ela não estava vendendo.

Andrea – 34 anos, técnica em nutrição, trabalhou numa grande empresa durante 6 anos, mas sentia que ali não conseguiria resolver uma questão que a incomodava há anos: as “sobras” de alimentos que iam para o lixo. Andrea largou o emprego formal e montou sua consultoria – ela vai aos estabelecimentos ensinando como aproveitar as sobras dos alimentos. O negócio dela tem 1 ano e ela procurou a Feminaria com um problema: ela cresceu e não consegue dar conta sozinha de todos os seus clientes.

Te pergunto: por que o negócio da Andrea não para de crescer, enquanto que o da Valéria está parado e ela não consegue sequer dar vazão ao estoque? Lembrando que ambas são apaixonadas e muito dedicadas ao próprio negócio.

A resposta é simples, porém, nada óbvia para quem está iniciando o próprio negócio: uma delas resolve um problema que atinge muitas pessoas, problema esse com o qual as pessoas se importam. As sobras de alimento são um problema não só financeiro – para quem precisa gerir grandes quantidades de alimento – mas também social – quantas pessoas poderiam ser alimentadas de forma saudável com a sobra de alimentos de grandes estabelecimentos?

Essa é a maior lição que você precisa aprender sobre empreender: você precisa entender a realidade do mundo. Muito mais importante do que a sua formação profissional, seus MBAs, os idiomas que domina e a universidade que frequentou, sua capacidade de entender “as dores do mundo” – ou do seu público – é que farão a diferença no seu negócio.

Que problema você resolve?

Já que você se interessou por esse artigo, me sinto no dever de lhe dar ao menos uma pista sobre o que pode ser feito para não repetir a precipitação da nossa personagem Valéria. Caso você esteja flertando com o empreendedorismo, ou pensando em transacionar de carreira, a minha dica é simples: procure por um problema.

Quando pensamos em empreender, nosso cérebro nos direciona – quase que automaticamente – a oferecer uma solução – mas como sabemos se essa solução é útil ou de fato resolve um problema? Quando pensamos em oferecer uma solução temos que buscar um problema e adaptá-lo ao que criamos. Isso faz algum sentido pra você? Tomara que não…

Quando começamos por descobrir um problema, só precisamos ajustar nossa mente e focar nossos esforços e criatividade na resolução dele, com toda a liberdade do mundo!

Resolvendo o problema

Numa realidade em que para quase tudo basta que apertemos um botão, não será você a pessoa a oferecer um complexo conjunto de soluções, sob pena de que ela perca o efeito “solucionador” e se torne um problema para o seu público. Simplicidade é a palavra de ordem, mantenha sua criatividade sob a luz da simplicidade.

Engana-se quem pensa que essa parte é fácil, como disse Clarice Lispector: “só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”. Coisas simples são mais baratas de serem construídas, não requerem apresentações mirabolantes para serem entendidas e consequentemente vão resultar num produto mais acessível financeiramente – ou seja, você poderá se preocupar menos com a “venda” da sua ideia, produto, ou serviço.

Quem se beneficia?

Seu público em potencial! Quem são as pessoas que terão a vida facilitada a partir da sua ideia / produto / serviço / negócio? A única maneira de você descobrir quem são essas pessoas é misturando-se com elas. Envolva-se com os problemas das pessoas ao seu redor, converse com amigos, familiares, colegas de trabalho, entenda a realidade deles e como eles lidam com o problema que você identificou.

Lembra do seu trabalho de conclusão de curso? Pois aqui a dinâmica é quase a mesma: você precisa investigar.

Ação

A hora e a vez de comprovar se sua ideia é doable – ou sejadescobrir se é possível colocar em pratica e trazer pro plano das coisas reais todo esse cenário hipotético que você criou. Esse é seu maior desafio. Aqui você vai precisar dedicar tempo e se comprometer, não vai importar se um dia você acordar sem motivação ou sem vontade, você tem um trabalho a ser feito e sua dedicação será o divisor de águas entre uma pessoa que tinha planos e uma pessoa que realiza projetos.

Coloque no mundo

Você passou por toda essa trajetória e vai colocar todo esse trabalho debaixo do travesseiro esperando que a fada do dente venha te deixar um dinheirinho? Não mesmo!

Coloque a sua criação no sol, mostre para as pessoas, coloque em prática, arrisque. Coragem, my dear, não é sobre uma força sobrenatural, a coragem é a capacidade de tentarmos quantas vezes forem necessárias para alcançarmos o objetivo que desenhamos para nossa vida.


Ana Carolina Moreira Bavon

Advogada, consultora jurídica e fundadora da Rede Feminaria.


Imagens: Pinterest

Por uma maternidade real, consciente e empática

– por Fernanda Vicente

Em um sistema que nos vende a maternidade compulsória e romantizada, onde a mãe deve abrir mão de tudo e viver apenas para os filhos, é importante falarmos sobre a maternidade de forma crítica, real e empática.

No entanto, para debatermos sobreo assunto, é necessário levar em consideração as peculiaridades e especificidades de cada mulher. O gênero nos une, mas raça e classe nos separam em um determinado momento.

Por exemplo: sou mulher, mãe, branca, classe média e com graduação.  Sei das opressões que sofro por conta do meu gênero. E sendo mãe, essa opressão aumenta. Mas reconheço e admito meus privilégios. Posso a qualquer momento sofrer violência de gênero. Mas nunca saberei o que é o combo racismo mais machismo e misoginia.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apesar de uma melhora nos índices entre 2000 e 2010 em relação à população afro-brasileira, o analfabetismo entre as negras ainda é o dobro se comparado com as brancas. Em relação à taxa de desemprego, em 2015 foi registrado que 17,4% das mulheres negras com ensino médio estava sem emprego, contra 11,6% da média feminina.

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A violência obstétrica, por sua vez, afeta boa parte de mulheres no país, como aponta o levantamento da Agência Pública. Segundo dados de 2010 da Fundação Perseu Abramo, uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência durante o parto como gritos, procedimentos dolorosos não autorizados ou informados, ausência de anestesia e negligência. Há também queixas de assédio sexual durante o pré-natal. Com as mulheres negras a incidência da violência é mais presente.

Na campanha “SUS sem racismo”, do Ministério da Saúde, em 2014, 60% das vítimas de mortalidade materna no país são negras; somente 27% das mulheres negras tiveram acompanhamento durante o parto, enquanto do lado das mulheres brancas, esse número chega aos 46,2%.

Dialogarmos com diferentes realidades se faz necessário para uma maternidade crítica e política, para que possamos assim pontuar nossas demandas, que são muitas e, na maioria das vezes, ignoradas pelo sistema que prefere virar as costas e continuar explorando nossa força reprodutiva e de trabalho.

É preciso entender que nem toda mãe tem acesso a informações sobre parto, puerpério, amamentação. Nem toda mãe tem tempo para levar e buscar o filho na escola. Nem toda mãe pode optar por não mais trabalhar depois do parto. Nem toda mãe pode colocar o filho numa escola com uma pedagogia alternativa. Nem toda mãe tem tempo para cuidar dos filhos, principalmente quando essa mulher mora afastada dos centros urbanos e sai para trabalhar de madrugada muitas vezes para cuidar dos filhos de outras mulheres. Nem toda mulher tem acesso aos seus direitos mais básicos e a informações importantes.

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A construção de uma sociedade mais justa e igual também passa pelo olhar empático sobre a realidade de outras mulheres. Maternidade consciente não é apenas entendermos os mecanismos patriarcais em que estamos inseridas e tentarmos dessa forma lutar contra essa estrutura. É também olharmos com empatia para outras mães e procurarmos entender o que passa na vida dessa mulher, sem querer ser salvadora ou detentora da verdade, apenas entendendo que somos muitas, somos plurais e a consciência de uma maternidade crítica se dá a partir dai.


Fernanda Vicente é mãe, feminista, jornalista e idealizadora do projeto Mães no Enem & Mães na Universidade, uma ação que tem como objetivo apoiar e auxiliar mães estudantes em todo o país.


Imagens: London Scout – Unsplash

Feminaria e Ideia Crua – Ecobags colaborativas

Aqui na Feminaria, acreditamos que a empatia e o apoio mútuo são a chave para transformar as relações de consumo. Conhecendo o trabalho umas das outras, formando vínculos fortes e duradouros, somos capazes de ir mais longe. Através da cooperação, podemos causar um impacto positivo na nossa vida e de nossas parceiras empreendedoras – e também nos nossos círculos sociais.

Além das relações entre você, suas parceiras e seus consumidores, é preciso pensar no impacto ambiental que o consumo acarreta, principalmente quando se trata de embalagens e sacolas que você oferece junto com os seus produtos. As ecobags são uma ótima forma de promover a sustentabilidade, além de funcionarem como um excelente veículo para propagar a sua marca.

Pensando em tudo isso, a Feminaria, em parceria com a Ideia Crua, da Amanda Santos, inova ao lançar o conceito de ecobag colaborativa, que faz parte de todo o conceito da Rede, que é fomentar o empreendedorismo afetivo feminino. A bag contará com a estampa de 10 negócios. A ideia é compartilhar o espaço e conquistar clientes por meio do compartilhamento e colaborativismo.

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A nossa fundadora, Ana Carolina Moreira, explica: “A cliente receberá o produto da sua marca e terá a oportunidade de conhecer outras empreendedoras, além de ter contato com a iniciativa e notar que existem mulheres se unindo por uma economia compartilhada. O custo dessa sacola será dividido entre as 10 empreendedoras que ostentarão suas marcas. Isso é o colaborativismo na prática. Para fechar uma bag são necessárias 10 empreendedoras de segmentos diversos, não poderão estar na mesma ecobag colaborativa empreendedoras com o mesmo nicho, isso para que possamos dar visibilidade a todas. Você poderá montar sua turma e pedir sua sacola, ou deixar por conta da Ideia Crua que é excelente para fazer essa curadoria do bem. As ecobags são reutilizáveis, portanto sua cliente vai passear por aí com os 10 logotipos estampados: propaganda garantida e da forma mais bonita, isto é, unindo sustentabilidade e compartilhamento”.

Que tal fazer parte deste movimento?

Para encomendar a sua ecobag, envie uma mensagem para: contato.ideiacrua@gmail.com.

Caso tenha dúvidas, fale com a gente! contato@feminaria.com.br

 

Ela era eu e eu, ela

– por Dominique Marcon

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São quatro horas da tarde de uma quarta feira muito quente em São Paulo, e estou eu aqui no trem quase lotado a fazer uma das coisas que mais gosto nesta vida: observar as pessoas que me rodeiam. Acabo de notar uma garota linda, tão linda, ao meu lado. Ela, toda colorida pelas suas tatuagens, com temas florais e doces, uma frase em idioma estrangeiro que não consegui identificar. Usava um vestido florido com pano leve, de comprimento que ia até às canelas e pude notar que assim como eu, era gordinha e não fazia uso do bom e velho sutiã.

Percebi que usava também botinhas meio cano e piercings, no nariz e orelhas, um batom forte nos lábios e cabelos curtinhos como os meus. Aparentava ter seus 17 ou 18 anos.  Ouvi em sua conversa com seu namorado, que tinha um tom de voz que beirava sons agudos e finos, até um pouco infantil, que pretendia colocar outro piercing, daqueles que imitam uma pinta perto da boca.  Após ouvir segundos da conversa alheia e depois dessa arreparação toda, pude, enfim, me ver nela. Eu era ela alguns anos atrás, e ela, eu, daqui alguns anos.

Após longo tempo em devaneios, me encontrei em meus pensamentos. Desejei com todo o meu coração, e proferi a ela em voz interna, baixinho “Vai menina, seja o que deseja ser…tenha a coragem que eu não tive de colocar todos os piercings que deseja colocar…seja você, seja quem você desejar ser, como você quer ser.” Fechei meus olhos e fiz como que um pedido antes de soprar as velas de aniversário. Na verdade, o meu desejo era o de abraçá-la, pois, a relação foi das mais puras moradas de empatia e identificação total. 

Seria isto a tal da sororidade com as minas?  Fico aqui a refletir se este afastamento e os olhares de reprovação que temos umas sobre as outras não se dá por desejarmos ser como elas, e por nossos vários motivos não conseguimos ser.

Nos olhamos criticamente por sermos “tatuadas demais”, “tatuadas de menos”, gordas demais, magras demais, cabelos coloridos demais ou de menos, religiosas demais ou sem crença nenhuma, donas de casa demais ou do mundo, demais ou de menos. Nos identificamos e projetamos, demais ou de menos.

Não precisamos de mais reprovações ou aprovações para ser quem quisermos ser. Devemos e precisamos nos apoiar nas nossas diferenças, para, juntas, nos fortalecermos, para crescer e andar com nossas próprias pernas bem fortes, longe dessa sociedade que nos denigre, nos julga, nos condena e nos mata todos os dias.

 

Dominique Marcon, é Psicóloga formada pela Universidade de Santo André, no ABC Paulista. Já atuou como educadora de Pessoas com Deficiência. Tem a fotografia e as artes como um processo criativo de refúgio dos dias de marasmo e fuga do cotidiano. Vegetariana e amante de música e cultura Brasileira, e viagens por esse mundão. Escritora por observação, leitura dos dias e também por um pouco de súbita coragem.