(Alguém nos) LIVRE (da Livre) NEGOCIAÇÃO

– por Ana Carolina Moreira Bavon

Quando recebi a notícia sobre a aprovação da reforma trabalhista não foram poucos os meus pesares.  Todas as minhas dúvidas são com relação ao aspecto jurídico dessa reforma, já que certamente a insegurança será instalada.

Minha conclusão pessoal é de que vai haver um período bastante nebuloso a partir de já. Penso que as empresas que antes deixavam de contratar em razão do enorme impacto financeiro passarão a contratar muito, obviamente fazendo uso da terceirização e da possibilidade de pagar trabalhadores por meio de contratação sob o manto da “pessoa jurídica” – vamos todos virar “pejotinha”.

Claro que esse boom vai ser veiculado pela mídia, as estatísticas vão noticiar o aumento do emprego, o aquecimento da economia e a queda da inflação, a estabilidade do dólar e outras maravilhosidades. Mas devemos lembrar que do outro lado haverá uma mão de obra precarizada, ou seja, sem qualquer proteção jurídica.

Pelas minhas análises e previsões, em 12 meses essa turma toda que foi contratada como PJ vai começar a se dar conta da instabilidade e vai haver muito questionamento, mas não poderá  recorrer à Justiça do Trabalho. Aí sim vamos começar a sentir o efeito dessa realidade que começa a ser desenhada agora.

Mas você pode me dizer: “Ana, existe a possibilidade de negociação e essa realidade que você está prevendo é bastante pessimista, acho que há um exagero”.

Eu concordo com você. Por natureza sou pessimista e tenho sempre do meu lado a possibilidade de ser surpreendida por coisas boas. Nesse caso, especificamente, eu torço para que elas aconteçam, mas não acredito.

A livre negociação não é essa maravilha, porque sempre haverá alguém esperto demais lidando com alguém esperto de menos. Os espertos de menos são os mortais com pouco ou zero conhecimento jurídico e sem habilidade alguma para negociar seu próprio valor de mercado dentro de uma sociedade onde “se você não quer tem quem queira”.

Há séculos foram pleiteados direitos sociais, eles foram a menina dos olhos da nossa Constituição Federal de 1988, porque visavam proteger a parte mais frágil da relação – o trabalhador.

Me pergunto: o que mudou entre 1988 e 2017 para que fosse desconsiderada totalmente essa falta de recursos próprios para debater direitos trabalhistas?

A livre negociação estará colocando de um lado empresas e seu exército de profissionais com conhecimento técnico e do outro lado um indivíduo que faz parte de um outro exército: o de 14,2 milhões de desempregados. Analisando o contexto social atual, quem será o bravo trabalhador que negociará as condições mínimas de trabalho quando tem família em casa e boletos a serem pagos?

Estamos falando sobre Direitos Sociais. Apesar de atenderem às necessidades individuais do ser humano, os direitos sociais tem caráter social (coletivo). Por quê? Porque uma vez que não são atendidas as necessidades de cada um, os efeitos nefastos recaem sobre toda a sociedade, e podem esperar sentadinhos em frente a sua TV4k – todos nós seremos afetados. Os direitos sociais são conquistas evolutivas e históricas, muita gente se arrebentou pra chegar até o ponto em que esses direitos foram considerados pelo Estado e inseridos na Constituição Federal.

São direitos sociais: “a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados”. Os direitos do trabalhador (férias, tempo mínimo de descanso etc etc etc) são direitos sociais (portanto, evoluíram a partir de muita luta, como eu falei acima). Esses direitos são um dos maiores exemplos de obtenção de garantias sociais ao longo da história (AO LONGO DA HISTÓRIA).

O direito previdenciário também é um direito social, ligado à condição humana em toda a sua existência. É contrapartida e valorização à vida das pessoas, por terem atingido determinada idade, ou terem se tornado incapazes de trabalhar mas que ainda precisam sustentar sua família, por tudo o que viveram e precisam viver com dignidade e conviver em sociedade. Ainda que a sociedade seja a mesma que não se importa com esses direitos.
Estamos PERDENDO tudo isso. E se há um motivo pra tristeza: é esse! A batalha não é entre fulano e sicrano (ao menos não deveria ser), a batalha é sobre Direitos conquistados a duras penas e a subtração deles.

Mesmo que sejamos ricos e saudáveis e não sejamos afetados por essas mudanças, nós enquanto indivíduos estamos sendo esbugalhados em nossos direitos sociais. TODO mundo vai ser atingido – por razões de: o efeito é coletivo, gente! C.O.L.E.T.I.V.O.

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Perdemos os direitos sociais e esse é só o começo.

 


Ana Carolina Moreira Bavon

Advogada, consultora jurídica e fundadora da Rede Feminaria.


Imagem: Recovery Place

Comece o ano investindo em conhecimento

– por Mariana Zambon Braga

O ano já começou. É hora de colocar a mão na massa e fazer as coisas acontecerem. Provavelmente você já criou listas e estabeleceu metas a serem cumpridas ao longo dos próximos meses. Que tal incluir nesse pacote o seu crescimento intelectual? 

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Imagem: Unsplash

Conhecimento é poder. Aprender algo novo nos estimula a pensar, a refletir, expande nossos horizontes e nos transforma em pessoas mais preparadas, tanto na esfera profissional quanto na pessoal. E nem precisa gastar muito dinheiro pra isso – a não ser que você realmente necessite de certificação ou de um treinamento mais aprofundado.

Quando pensamos em estudo e aprendizado, logo imaginamos o conceito de escola, faculdade, cursos em sala de aula, ou mesmo cursos online. Isso tudo é ótimo, faz parte da nossa formação intelectual e, às vezes, profissional. É importante ter bastante conhecimento na nossa área de atuação. No entanto, existem aprendizados que não entrarão no seu currículo, mas que serão cruciais para a sua trajetória de vida. 

A leitura é uma excelente forma de aprender – seja através dos livros de história, biografias, artigos de jornal ou revista. Até as histórias de ficção são capazes de nos ensinar muitas coisas. Outra maneira gratuita e simples de adquirir conhecimento é procurar por palestras e aulas disponíveis em canais no Youtube, ou em sites como o do TED Talks. E, é claro, existem milhares de cursos e plataformas de aprendizado online.

E, caso você tenha algum dinheiro sobrando, sempre vale a pena aplicá-lo em seu desenvolvimento pessoal- como, por exemplo, nos cursos de idiomas aqui da Feminaria. Aliás, não esquece de assinar a nossa Newsletter para ficar por dentro de todas as novidades da rede.

Seja como você preferir, saiba que o investimento mais precioso de todos é em você mesma. Tanto de tempo quanto de dinheiro.

Para te incentivar a aprender coisas novas neste ano, fiz uma lista com meus sites e recursos preferidos, de cursos e palestras a artigos acadêmicos.

Que 2017 seja repleto de aprendizado e novos saberes. Vamos juntas, crescendo sempre!

Plataformas de cursos online:

Udemy – É uma plataforma global de aprendizado e ensino. Oferece cursos gratuitos e pagos, com preços a partir de R$25,00, em áreas como Negócios, Finanças, Empreendedorismo, Produtividade no Escritório, Música, Idiomas e Marketing. Também permite que você se cadastre como instrutora e transmita o conhecimento que tem a oferecer.

Khan Academy – O site é em inglês, mas tem bastante conteúdo em português. É possível aprender, de graça, sobre Biologia, Química, Música, Matemática, bem como tirar dúvidas e assistir a aulas de reforço. Pra quem é bilíngue, vale muito a pena!

Coursera – O Coursera é um site que oferece cursos livres e gratuitos, especializações e pós-graduação elaborados por universidades internacionais. Você pode assistir à maioria dos cursos sem pagar nada, e, se desejar um certificado, basta cumprir todos os requisitos e tarefas e pagar uma taxa. É excelente para quem precisa se manter atualizado.

Veduca – O Veduca é um portal com cursos gratuitos nas áreas de Administração, Finanças, Liderança e Gestão. O site também oferece soluções para empresas.

Unesp Aberta – O site da Unesp Aberta oferece aulas sem certificação, nem tutoria. No entanto, os conteúdos são abrangentes e incluem cursos de Filosofia, leitura em inglês, química, artes, biologia, geografia, educação, entre outros.

Ted Ed – O site do TED Ed traz palestras e aulas curtas sobre diversos assuntos debatidos nos TED Talks. Nele, você também pode criar aulas e conteúdos. O site é em inglês, mas a maioria dos vídeos possui legendas em português.

Cursou – Com mais de 350 cursos online, o Cursou oferece conhecimento gratuito nas áreas de Direito, Informática, Educação, Idiomas, Administração, Design Gráfico e Música.

e-Unicamp – Portal com vídeos, animações, simulações, ilustrações e aulas, materiais criados pelos próprios professores da Unicamp e de acesso livre ao público. As áreas incluem ciências exatas, humanas, biológicas e artes.

Canais do Youtube:

Território Conhecimento – O canal traz palestras e entrevistas com pensadores como Marcia Tiburi, Viviane Mosé, Ligia Py, Mário sergio Cortella e Leandro Karnal, entre outros.

Homo Literatus – Para os amantes de literatura, o site Homo Literatus, que também conta com o canal do YouTube, é um excelente local para conhecer novas leituras, aprofundar debates e dialogar com novos escritores.

Café Filosófico CPFL – O canal do Café Filosófico é uma parceria do Instituto CPFL com a TV Cultura. Nele, você encontrará debates com pensadores e pensadoras contemporâneos acerca dos mais diversos temas, como sexualidade, religião, comportamento e política.

Think Olga – Além do site que disponibiliza matérias sobre os temas mais urgentes da luta das mulheres, o canal da Think Olga traz entrevistas com mulheres na série Pergunte a Ela, com dicas sobre como começar um canal no Youtube, como começar uma carreira na moda, e muito mais.

TED Talks – Eu não me canso de recomendar as palestras do TED, por motivos óbvios. Além de nos permitir ouvir vozes às quais jamais teríamos acesso, os vídeos dos talks provocam o nosso pensamento e nos estimulam a olhar o mundo de forma diferente. Recomendo muito!

Artigos acadêmicos:

Educ@ – Através do portal, é possível encontrar diversos artigos de pesquisa acadêmica para download. Basta procurar pelo assunto ou pelo autor e baixar o texto completo.

CAPES – O Portal de Periódicos da Capes – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – é uma ferramenta fundamental para as atividades de ensino e pesquisa no Brasil. Segundo informações do site, “O Portal de Periódicos reúne em um único espaço virtual as melhores publicações do mundo. Com uma simples consulta feita pelo computador, usando critérios como autor, assunto ou palavra chave, é possível acessar, selecionar e recuperar as informações desejadas”.

Se você conhece alguma outra ferramenta bacana de aprendizado online, conta pra gente nos comentários!

 

Mariana Zambon Braga
Responsável pela redação da Rede, é tradutora de inglês, formada em letras pela USP.
Atua nas áreas de: contratos, traduções técnicas, traduções literárias, artigos e monografias. Escritora por vocação e realizadora por necessidade.

Precisamos falar sobre sororidade no mercado de trabalho!

– por Nathalia Marques

Imagem: Pinterest
Imagem: Pinterest

Sororidade é uma das palavras do momento, assim como empoderamento feminino. Podemos definir, de maneira simplista, o termo sororidade, como a união entre as mulheres com base na empatia. Existe, é fato, muita controvérsia sobre a aplicação real deste conceito.

Há quem acredite que a prática simplesmente não existe, e quem pensa isso tem em vista que devemos ter sororidade com as mulheres em qualquer questão. Isto é impossível, uma vez que é inadmissível ver uma atitude ou fala errada ou desrespeitosa por parte de uma mulher e justifica-la ou simplesmente deixar quieto para demonstrar sororidade.

No entanto, há quem defenda que a sororidade existe, sim, e sua aplicação deve se dar justamente na união e na empatia entre as mulheres para que, juntas, possamos lutar pelo fim das opressões. Isso significa nos unir para ajudarmos umas as outras perante situações de desigualdade social, de gênero, racial e em tantas outras questões.

Diante dessa última explicação, acho importante levantar o tema da sororidade no mercado de trabalho. Sabemos que essa área é extremamente competitiva e isso pode acirrar ainda mais a disputa entre as mulheres.

Porém, enquanto lutamos pelos cargos umas das outras e fazemos intrigas desnecessárias no trabalho, somos nós que ainda continuamos com salários mais baixos, com cargos de menor prestígio, somos nós, mulheres, que quando temos filhos passamos por dificuldades para arrumar um emprego. Ou seja, enquanto rivalizamos não ganhamos nada, apenas perdemos!

Quando falo sobre sororidade no mercado de trabalho, estou falando em geração de oportunidade, ou seja, fortalecimento da contratação de mulheres, investimento em mulheres profissionais, mães profissionais, mulheres negras. Praticar a sororidade no contexto profissional também é ajudar a outra, fortalecer os laços para que tanto você quanto ela possam galgar cada vez mais cargos de chefia. É estar ao lado umas das outras, quando somos obrigadas a enfrentar situações machistas no trabalho.

Enfim, é a união para gerar mudanças. Separadas e agindo como rivais não vamos conseguir ocupar espaços! Precisamos estar juntas e gerar oportunidades umas para as outras.

 

Nathalia Marques

Desde 1992, a garota que corre com os lobos questiona tudo e todos. Jornalista de formação, é blogueira de viagem por opção, feminista por necessidade, colunista do site Lado M por amor à causa e leitora assídua por paixão.

Pesquisa: Mulheres são maioria em universidades e cursos de qualificação

Créditos da imagem: Pexels

Dados do Plano Nacional de Qualificação, do Ministério do Trabalho e Previdência Social apontam, entretanto, diferença de remuneração em relação aos homens.

As mulheres são maioria nas escolas, universidades, cursos de qualificação, mas ainda recebem menos do que os homens para desempenhar as mesmas atividades e estão mais sujeitas a trabalhos com menor remuneração e condições mais precárias.

Das mulheres ocupadas com 16 anos ou mais de idade, 18,8% possuíam Ensino Superior completo, enquanto para homens, na mesma categoria, esse percentual é de 11%, apontam dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) de 2014, realizada pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A pesquisa indica ainda que as mulheres são maioria para Ensino Médio completo ou Superior incompleto: 39,1% das mulheres se enquadram nessa categoria, contra 33,5% dos homens.

Para as mulheres, no entanto, maior escolaridade e presença nos cursos de qualificação não se traduz em maiores rendimentos, e essa diferença se amplia conforme aumenta a escolarização. As mulheres com cinco a oito anos de estudo receberam por hora, em média, R$ 7,15, e os homens, com a mesma escolaridade, R$ 9,44, uma diferença de R$ 24%. Para 12 anos de estudo ou mais, essa diferença na remuneração vai a 33,9%, com R$ 22,31 para mulheres e R$ 33,75 para homens.

Os estudos apontam que as mulheres têm mais escolaridade que os homens, mais isso não tem sido determinante para que ela possa entrar em setores mais qualificados e, mesmo ela estando nesses setores, ela recebe menos e não é valorizado o seu grau de instrução“, afirma Rosane da Silva, coordenadora do Núcleo de Gênero do MTPS.

No entanto, apesar dessa diferenciação por gênero ainda existir no mercado de trabalho brasileiro, as mulheres vêm conquistando avanços e espaços e diminuindo, ainda que lentamente, a diferença entre salários e rendimentos. Em 2004, ainda segundo dados da Pnad, a diferença da remuneração por hora entre homens e mulheres foi, em média, de 38,53% para trabalhadoras com 12 anos de estudo ou mais.

A busca por diminuir essa diferença é contínua e envolve o fortalecimento de políticas públicas que estimulem a igualdade de gênero no mercado de trabalho, além de exemplos individuais de superação, qualificação e avanços.

Esse é o caso da empresária Zeli D’Ambros, de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Filha mais nova de uma família de agricultores de nove irmãos, saiu do interior do Estado com 13 anos para trabalhar e estudar em Caxias, segunda maior cidade do Estado. Entrou no mundo do trabalho cuidando de crianças e estudando para concluir o segundo grau. Depois, trabalhou em uma malharia, onde passou por diversas funções até ser contratada por uma empresa de logística, na qual chegou ao cargo de gerente, mas não conseguia ser promovida.

“Não importava o que eu fizesse, houve três oportunidades de promoção, e sempre traziam um homem para a vaga de direção”, lembra Zeli, acrescentando: “nas empresas que visito, vejo muitas mulheres gerentes, mas poucas diretoras. Hoje 51% das micro e pequenas empresas de Caxias são lideradas por mulheres. Fico pensando se não é porque as mulheres não são reconhecidas para cargos de direção e acabam saindo para se tornarem donas da própria empresa”, conta Zeli.

A persistência, aliada a estudos e disposição para encarar cursos noturnos de graduação e pós-graduação levaram Zeli a se tornar dona de uma das subsidiárias da empresa de logística e, posteriormente, a abrir o próprio negócio. “Existe uma barreira, e parece que a mulher tem de estar o tempo todo provando sua capacidade e se fazer reconhecida. Mas eu acho que a competência não está em uma calça ou uma saia. A competência está em se qualificar e ver que, independentemente de gênero, as capacidades são iguais”, pondera a empresária.

Hoje a empresa de Zeli gera trinta e cinco empregos diretos e indiretos, e muitos dos empregados são homens.

 

Fonte: Portal Brasil, com informações do Ministério do Trabalho e Previdência Social