Entrevista – Sítio Graúna

Entrevista – Sítio Graúna

 

No início deste ano, a Casa Feminaria firmou uma parceria com o Sítio Graúna, tornando-se um ponto de coleta de orgânicos. As cestas produzidas pela Roberta Pessoa e sua família são repletas de alimentos cultivados com muito amor e pensando na sua saúde e no meio ambiente. Ao encomendar uma cesta, além de ter uma alimentação mais saudável, temos a certeza de que estamos apoiando uma mulher que, com muita coragem, decidiu embarcar em uma grande jornada de empreendedorismo com sua família.

Conversamos com a Roberta e ela dividiu conosco sua trajetória, suas dificuldades e alegrias.

Confira abaixo a entrevista:

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Como você ingressou na agricultura familiar? Conte um pouco da sua história para nós.

A ideia de Ingressar na agricultura familiar caminhou junto com o meu relacionamento com Davis. Nos conhecemos em 2011,  ele vivia em São Paulo, em uma casinha com um jardim lindo nas Perdizes e passava uma parte do seu tempo livre cuidando daquilo tudo. Eu achei muito curioso, nunca tinha tido um contato com tantas plantas anteriormente. Era pedagoga, lecionava para crianças e não tinha tido, até então,  a possibilidade de cuidar de um jardim e me encantei. Descobri que era muito gostoso passar um tempo cuidando de plantas e era muito legal comer muita coisa que plantávamos em casa, em caixas de sushi, em vasos, jardineiras, pneus.

No final daquele ano, fizemos uma viagem que durou quase 30 dias de carro com a cachorra dele. Fomos até a Chapada da Diamantina, na Bahia, e depois descemos pelo litoral, foi incrível, a ideia de sair da cidade grande para viver em um lugar diferente, mais calmo, começou naquela viagem.

Em 2013, surgiu a ideia de plantar comida para alimentar pessoas da cidade. Essa onda de alimentos orgânicos delivery estava começando, mas ainda não tínhamos terra alguma, só a ideia, então passávamos horas pesquisando como plantar tal alimento, como fazer horta, etc. Demoramos um tempo para juntar a grana necessária para comprar algo. Em 2014, nasceu nossa filha Estela e a vontade de sair de São Paulo para termos o nosso tempo com ela e com a terra foi muito forte.

No final de 2014, mais precisamente 19 de dezembro de 2014, nos mudamos para o Sul de Minas, para uma cidade da qual nunca havíamos ouvido falar, não conhecíamos ninguém e não tinha rede elétrica no sítio que compramos. A casa estava só nos tijolos, mas estávamos tão felizes, radiantes e encantados com isso tudo (e ainda estamos) que não nos importamos com nada. Foi uma mudança muito brusca, muito intensa, mas muito bem vivida. Passávamos o dia atirando sementes em uma área que cercamos como área de preservação e que estava totalmente degradada, cercamos a mina d’água, pesquisamos e criamos uma fossa biodigestora e uma fossa séptica para não descartarmos nenhum resíduo na propriedade,  ainda estamos trabalhando intensamente em reflorestar a nossa propriedade, que era um grande pasto. É um trabalho minúsculo, muito demorado, a natureza leva um tempo para se regenerar. Plantamos mais de 300 árvores nativas, estamos plantando uma variedade bacana de frutas, formando uma floresta comestível, porém só teremos muitas delas produzindo quem sabe daqui a cerca de 5 anos.
Neste mês, estamos iniciando as entregas dos alimentos que produzimos aqui no sítio em parceria com outros pequenos produtores de alimentos orgânicos. Conhecemos diversas famílias que vivem da terra, trabalham de uma maneira extraordinária na agricultura familiar e nos inspiramos demais nessas pessoas.

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Roberta e sua família no Sítio Graúna

Qual foi o principal fator que te motivou a trabalhar com alimentos orgânicos?

Plantar é incrível, ter a oportunidade de observar o ciclo completo dos alimentos, da semente até a próxima semente é mágico. Acredito que a grande mudança da cidade para o campo foi que passamos a viver muito mais atentos às estações, as fases da lua, olhamos para o céu o tempo todo, nem precisamos de relógio pra trabalhar, conhecemos a agricultura biodinâmica,  estudamos a agricultura sintrópica do Ernest Gotsch e a agroecologia de Ana Maria Primavesi, vamos colocando isso tudo que lemos na prática em nossa propriedade e isso é muito gostoso. Descobrimos que amamos fazer isso, nos identificamos com esse caminho, é muito prazeroso cuidar da terra. E bastante trabalhoso, porém, poder passear pela nossa mata nativa e observar o crescimento das hortaliças, puxar e comer aquela folha de rúcula direto porque não tem veneno nem nada químico já nos mostra que escolhemos o caminho em que acreditamos.

Como é a sua rotina como agricultora? A família toda participa das atividades do sítio?sitio3

A rotina no campo é variada, algumas vezes trabalhamos intensamente colhendo os alimentos para levar para a cidade, organizando essa logística para que as pessoas recebam tudo fresquinho, gostoso ou trabalhamos formando novos canteiros, plantando árvores, mas também organizamos o nosso dia para que tenhamos o nosso ócio muitas vezes, coisa que era impossível vivendo na cidade grande. Além disso, temos uma criança pequena em casa, o que muitas vezes acaba organizando nossa rotina de maneira diferente.

As estações do ano também ajudam a organizar a nossa rotina. Por exemplo, agora estamos no fim do verão, extremamente quente no meio da tarde, então procuramos fazer todas as coisas nas hortas antes desse horário ou depois, acordamos cedo, irrigamos as hortas, precisamos observar como estão os alimentos, se estão bem, fazer as podas, alimentar as galinhas (elas vivem no sistema semi aberto), fazemos as mudas para plantar, pesquisamos  sementes diferentes ou trocamos – tudo isso somente nós dois. Contamos com a ajuda da minha mãe e de um vizinho que trabalha fazendo o serviço de podas.

O grande ponto no final do ano passado foi que conseguimos a instalação da internet via satélite na propriedade. Isso nos possibilitou o contato com as pessoas da cidade que querem comprar nossos alimentos. Antes, não tínhamos esse acesso, o sinal de celular é bem ruim, e nenhuma empresa topou instalar internet via rádio no nosso bairro, se não tivéssemos essa opção, possivelmente eu nem conseguiria responder esta entrevista.

O trabalhador rural quer tecnologia, precisa desse acesso, para estudar, se informar, se divertir, ganhar dinheiro, e infelizmente ainda é uma alternativa bastante cara comparando aos ganhos de muitos trabalhadores rurais. Mas já consigo enxergar quem sabe daqui alguns meses uma melhora nesse sistema.

A parceria do Sítio Graúna com a Feminaria começou este ano. Quais são as suas impressões até agora, tanto da Rede quanto deste projeto de ponto de coleta?

Nossa parceria se iniciou em janeiro por meio de uma amiga em comum que me apresentou à casa. A Casa Feminaria estava em busca de alguma mulher produtora de alimentos para formar o ponto de coleta de orgânicos e foi perfeito, pois havíamos acabado de comprar o carro para as entregas e estávamos planejando toda a logística. Já formamos clientes fiéis na Casa, que estão satisfeitas em receber nossos produtos e só temos que agradecer porque é uma iniciativa maravilhosa que está beneficiando diversas mulheres. A casa é um espaço impecável, rola muitas formações interessantes, muitas vezes gostaria de estar presente para participar, mas acabo conhecendo pela rede mulheres incríveis que produzem coisas fantásticas ou que oferecem um trabalho bacana. A Ana e a Maria Carolina são sensacionais, trabalham intensamente para que a Casa funcione maravilhosamente, só tenho elogios e imagino um crescimento interessante com o ponto de coleta dos orgânicos.

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Cesta de orgânicos do Sítio Graúna

Na sua opinião, qual é a maior dificuldade para quem deseja ingressar no ramo da agricultura familiar? Quais foram os maiores obstáculos que você enfrentou e as maiores alegrias?

A maior dificuldade para quem deseja ingressar no ramo da agricultura é conseguir subsídio para iniciar na área. Até agora não recebemos nenhum incentivo do governo para implementar nada, tudo o que pesquisamos ou fomos atrás é muito burocrático, mal informado ou necessitava de algo que só quem já comercializa ou possui empresa legalizada acaba conseguindo fazer parte de algum plano de investimento.
A mudança de governo extinguiu o MDA- Ministério do Desenvolvimento Agrário, que colaborava com um suporte importante para a agricultura familiar e com o plantio orgânico.  Também tem a questão da certificação que é cara, mesmo a participativa, então o agricultor necessita ter condições para bancar isso tudo, se adequar ao programa e pagar isso mensalmente. Infelizmente, sei que para muitos trabalhadores rurais é bem complicado.

Nossa maior alegria é que agora estamos começando a enxergar o reconhecimento do trabalho no campo, que ainda nem é um trabalho de tantos anos, mas que já sentimos diariamente, vendo a mata nativa regenerada abrigando animais muitas vezes extintos, observamos nossa mina d’água funcionando perfeitamente, comercializando nossos alimentos para pessoas que curtem e apoiam muito esse movimento. Ver esse processo completo de cuidar da terra, plantar e comercializar o alimento direto para o consumidor na cidade é muito bacana e só caminha para crescer.

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Deixe um recado para as nossas leitoras!

Eu gostaria de agradecer à Casa Feminaria por todo o suporte, ajuda, troca de dias de mensagens, isso tudo não tem preço! Para as associadas, eu tenho que agradecer também porque elas acabam colaborando com a movimentação da renda de muitas mulheres. Quando a gente pensa em comprar algum produto e escolhe algo produzido por uma mulher, muitas vezes que está cuidando do filho em casa ou que está desempregada, ou ainda iniciando um trabalho autônomo, é um apoio real, concreto, porque não adianta apenas elogiar e curtir o trabalho dela, é preciso consumir dela, apoiar gerando renda. Observo uma conscientização muito grande da economia feminina e estou muito feliz em agora fazer parte dela, tanto como consumidora, como produtora rural.

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A Casa Feminaria é um Ponto de coleta dos orgânicos produzidos pela Roberta Pessoa e sua família no Sítio Graúna.

São dois tipos de cestas:

Cesta do sítio básica: com alimentos livres de agrotóxicos diversos e frescos!

Cesta do sítio especial: com os alimentos diversos e frescos e mais 5 produtos artesanais deliciosos do Sul de Minas, sem corantes, xaropes ou qualquer outro ingrediente deste tipo.

-️ É possível substituir algum alimento ou adicionar outros em seu pedido!

-️ Os alimentos são enviados em uma ecobag de algodão resistente para que sejam devolvidas na próxima data de coleta.

– Cestas limitadas.

Façam suas encomendas pelo e-mail: atendimento@cestadositio.com.br ou pelo telefone: (35) 99209 9079

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