Desistir também é uma opção

– por Mariana Zambon Braga

Este não é um texto motivacional. Já existem muitos deles por aí, principalmente aqueles que dizem que “Desistir não é uma opção”. Como se chegar ao fim de alguma coisa, ou alcançar determinado objetivo, valesse a pena em qualquer situação. Mais ainda: como se fosse válido suportar toda e qualquer adversidade para sentir o gosto da vitória.

Em muitos casos, a persistência, o foco e a dedicação são, de fato, qualidades que nos impulsionam para as metas das quais temos plena convicção. Seguimos aguentando as dificuldades, engolindo os sapos da vida, trabalhando horas a fio, pois, no nosso íntimo, sabemos que o fim da jornada será válido. Ou, talvez, por não termos condições de analisar outras opções – quando, por exemplo, nosso emprego ou trabalho é a única maneira viável de sustento.

oleukena_givingupisnotanoption-2Supondo que estamos em uma situação na qual é possível escolher, o lema desistir não é uma opção nos estimula a continuar trilhando um caminho sem pensar em voltar atrás. Adotamos a mentalidade dos maratonistas, que seguem um percurso solitário e cansativo até a linha de chegada. E, como estes esportistas, descobrimos muitas riquezas ao longo do processo, transformando as cãibras, o suor e os quilômetros percorridos em aprendizado. A trajetória, em si, acaba sendo tão frutífera quanto a própria medalha. 

Mas e quando estamos em uma corrida sem fim? Ou melhor: e quando o percurso não nos leva a lugar algum e corremos em círculos? Nessas situações, talvez seja mais produtivo encarar a realidade e desistir, sem medo.

Antes de pensar em mergulhar de cabeça ou entregar-se de corpo e alma a um projeto ou a um objetivo a ser alcançado, precisamos ter certeza de que aquele é o lugar aonde queremos chegar. E nem sempre conseguimos ter a plena segurança de que estamos no caminho certo, não é mesmo? Em todos os contextos da nossa vida, no trabalho, nos relacionamentos e nos projetos pessoais, a dúvida nos visita constantemente.

Enquanto percorremos a estrada até o destino planejado, podemos começar a acreditar que aquilo não faz mais sentido. Neste caso, o que é melhor: permanecer num beco sem saída, num labirinto, ou dar alguns passos para trás e, com mais clareza, enxergar as novas possibilidades? 

É normal querer terminar algo que começamos. Dá uma sensação gostosa de dever cumprido, de conquista e merecimento. Por isso é tão difícil desistir. Pensamos: “Perdi tanto tempo da vida com isso, e agora vou abandonar?”.

Porém, ao invés de olhar para algo que você deixoleukena_givingupisnotanoption-3ou para trás como uma derrota ou uma desistência, você pode enxergar toda a bagagem que acumulou até aqui- seja em termos de qualificações e habilidades, seja em termos emocionais – e pensar em como ela será útil em qualquer outro caminho que você escolher trilhar.

Desistir de algo que não te faz bem ou que não te ajuda a crescer e melhorar não é sinônimo de fraqueza, mas de autoconhecimento e maturidade. Ao aceitar que nada nessa vida é permanente, que existem infinitos caminhos e que é, sim, possível (e às vezes, necessário) mudar de opinião, de foco e de objetivo, conseguimos nos cobrar menos.

Ser capaz de desistir é poder errar e reconhecer a força dos recomeços.

É preciso ter muita força para abdicar de um emprego sufocante ou explorador, para desapegar de um relacionamento abusivo, para seguir em frente e demolir as paredes dos becos sem saída e dos labirintos.

Desistir pode ser, sim, uma ótima opção. Só não podemos é desistir da vida, tão rica e repleta de possibilidades.


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Para ilustrar esse texto, escolhi a série de fotografias do artista alemão Ole Ukena. Ao olhar para esta instalação, somos confrontados, à primeira vista, com uma situação na qual o artista está prestes a terminar a obra. Uma escada, algumas letras, pregos, pincel e tinta ainda estão espalhados no chão, como se aguardassem pelo momento de serem usados. Ao olhar mais atentamente, percebemos que a frase “Giving up is not an option” (Desistir não é uma opção) deve ser lida à luz da ironia. O artista desistiu de terminar a instalação que recebe este nome e a obra é finalizada sem ser terminada.


Mariana Zambon Braga
Responsável pela redação da Rede, é tradutora de inglês, formada em letras pela USP.
Atua nas áreas de: contratos, traduções técnicas, traduções literárias, artigos e monografias. Escritora por vocação e realizadora por necessidade. Contato: redacao@feminaria.com.br

Pensamentos de uma mulher cansada

– por Mariana Zambon Braga

Hoje é uma data que me traz sentimentos conflitantes. Comemoramos as lutas que nos propiciaram à conquista de diversos direitos para a mulher, como o direito de votar, trabalhar, estudar, ser sexualmente livre e independente (estes dois últimos um tanto quanto questionáveis). Ao mesmo tempo, analisando o panorama do nosso país e do mundo, a sensação que se tem é a de que não chegamos a lugar algum. Faz tanto tempo que estamos reivindicando exatamente as mesmas coisas e, em diversas ocasiões, quando parece que chegamos a um ponto satisfatório, perdemos em alguma frente. 

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É cansativo. É inacreditável ainda ter que protestar, explicar, ser silenciada em conversas por homens que julgam conhecer mais do que nós a nossa própria realidade. 

Eu gostaria de me sentar aqui na frente do computador e dizer frases de efeito e motivadoras. Destrinchar todas as vitórias, histórias de luta e superação para inspirar a nossa jornada e abrir um sorriso no seu rosto. No entanto, me falta uma boa dose de ânimo.

É claro que os espaços que ocupamos na sociedade são cada vez maiores, que estamos mais unidas e fortalecidas, que a nossa voz às vezes parece muito mais forte do que no passado. Estamos vivendo um momento crucial de reflexão, reconhecimento e organização das mulheres, algo que pode ser o prenúncio de um levante feminino como nunca vimos antes. Ou será que estou sonhando demais?

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Há cerca de cinquenta anos, o movimento feminista como o conhecemos hoje reivindicava igualdade salarial e melhores condições de trabalho para mulheres, principalmente as mães. As mulheres marchavam pela divisão das tarefas domésticas e do cuidado com os filhos, pelo fim da dupla jornada de trabalho, pelo respeito e pela não objetificação da mulher. Meio século depois, continuamos gritando e clamando pelos mesmos direitos.

A única coisa em que consigo pensar neste dia é no quão cansada estou por sempre ter que repetir as mesmas coisas, a cada ano que passa. Em 2016, escrevi um texto no meu blog pessoal, dizendo resumidamente o seguinte:

Durante trezentos e sessenta e quatro dias do ano, somos repudiadas, silenciadas, tratadas como seres inferiores, mas, em um dia do ano, temos uma enxurrada de elogios e flores e mensagens com conteúdos melosos em todos os lugares. Como se esta migalhas saciassem nossa fome por igualdade e justiça. Como se fôssemos dignas de respeito e admiração apenas  neste dia, e apenas da maneira que convém aos outros.

Alguma coisa mudou? Talvez você seja uma mulher sortuda, como eu, que convive com um homem que te respeita, e isso seja algo que faça toda a diferença no seu microcosmo. Talvez você tenha o privilégio de trabalhar e conviver em espaços mais seguros e onde o machismo é menos escancarado. E quanto ao resto do mundo? É impossível viver isolada em uma bolha de amor e desconstrução o tempo todo. Conclusão: temos que continuar levantando a nossa voz, mesmo que isso seja cansativo.  53380271

Porque ter que falar o tempo todo que não somos obrigadas a aceitar os padrões de beleza, que não precisamos nos enquadrar no conceito de feminilidade, que ninguém deveria nos dizer como e quando e quem devemos amar, que, afinal, somos gente, somos humanas e merecemos viver de forma digna – isso deixa qualquer uma exausta.

Porém, não é por isso que vamos parar de lutar ou nos calar. Diante de tudo isso, gostaria de propor uma reflexão, nesta data que serve justamente para isso: qual é a nossa estratégia para alavancar as mulheres ao nosso redor, incluindo nós mesmas? O que eu, você, nós, juntas ou em nossos contextos individuais, podemos fazer, ou continuar fazendo, ou fazer melhor, para que as pautas que reivindicamos há mais de meio século deixem de ser lutas e se transformem em conquistas? 

Quando o Dia Internacional da Mulher remeter apenas à memória das lutas passadas, e não à necessidade constante de batalhar por coisas básicas, como a liberdade de andar na rua sem ser assediada, então será um dia para, de fato, comemorar com a alma leve. De receber flores sem sentir seus espinhos ou um nó na garganta ao lembrar de todas as vezes que tivemos que engolir a seco o descaso de um chefe, os risinhos dos colegas de trabalho que nos menosprezam por causa de nosso gênero, entre tantas outras violências, simbólicas ou reais, que sofremos no dia a dia.

Para hoje, o meu desejo é que todas nós sejamos inspiração umas para as outras. Que possamos encontrar umas nas outras apoio, acolhimento, empatia, poder, força, amizade e aprendizado. Por nós, para nós, juntas, nem uma a menos, somos fortes, melhores e maiores. Podemos estar cansadas, exaustas, perplexas por ainda ter uma distância enorme a percorrer. Mas as nossas lutas, políticas, pessoais, sociais, jamais serão em vão.

Avante!

Mariana Zambon Braga
Responsável pela redação da Rede, é tradutora de inglês, formada em letras pela USP.
Atua nas áreas de: contratos, traduções técnicas, traduções literárias, artigos e monografias. Escritora por vocação e realizadora por necessidade.

Imagens: Getty Images

Pequenas doses de autoestima

por Mariana Zambon Braga

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Imagem: Unsplash

Ah, a autoestima. Essa coisa que almejamos diariamente, que deveria nos cobrir como um manto de proteção contra críticas, rejeições e fracassos. Que deveria ser inabalável, incorruptível e fundamentada somente no que pensamos sobre nós mesmas. Que traz como bônus a tal da autoconfiança.

Quem nunca passou por momentos de total dúvida a respeito de si? Muito além de duvidar da beleza ou da aparência física – embora a autoimagem concreta também seja importante para moldar a nossa percepção mais abstrata de quem somos – a incerteza de ser capaz de realizar nossos projetos me parece muito mais angustiante. A incerteza de ser o que você acredita ser.

Basta um deslize, alguma coisa que deu errado, um passo para trás (por vezes necessário), e os acusadores que vivem dentro de nós começam o seu coro. Apontam dedos. Amplificam o ruído das derrotas. E é tão difícil silenciar essas vozes que nos levam para o poço sem fim da autopiedade, não é mesmo?

Eu gostaria de dizer que existe uma maneira simples e fácil, imediata, uma pílula capaz de restaurar a nossa autoestima em segundos. Um quadro com uma frase motivacional de Vai ficar tudo bem, ou Você é a pessoa mais maravilhosa do mundo, capaz de incutir isso no seu cérebro para sempre. Mas, eu estaria contando a maior mentira já inventada. Não existe uma receita mágica para evitar as críticas ou nos levantar quando os resultados que esperamos não se concretizam.

Precisamos ter em mente que não somos sempre a mesma pessoa. Tudo nessa vida é um processo. A autoestima vem em pequenas doses, e caminha de mãos dadas com o autoconhecimento. Quanto mais você souber quem você é, entrar em contato com sua essência, quanto maior for a sua certeza sobre os seus limites e potenciais, tudo se tornará mais leve. Inclusive sua relação com sua imagem física. As críticas, as derrotas e os obstáculos não deixarão de existir. Porém, ao invés de serem encarados como um ataque pessoal, os acontecimentos negativos se tornarão oportunidades de crescimento.

O caminho para construir a autoestima é pessoal e intransferível. Por isso, seguir os passos que outra pessoa trilhou pode, muitas vezes, não trazer o resultado que você gostaria. Algumas dicas, listas, exemplos, do tipo “o que fazer para melhorar a autoestima” podem servir de parâmetro, um ponto de partida. Apenas tome cuidado para que isso não engesse sua mente e te impeça de vivenciar esta trajetória à sua maneira. Afinal, autoestima são as suas crenças sobre você, e não sobre os outros, ou dos outros a seu respeito.

Para mim, funciona bastante como um diálogo interno. Quem sou eu, de verdade? Do que eu sou capaz? Quais são minhas qualidades reais? O que estou fazendo com as ferramentas que possuo? Como me apresento no mundo? O que eu faço com aquilo que o mundo está dizendo sobre mim? O que posso fazer para melhorar? Respondendo a essas perguntas, ou pelo menos refletindo sobre elas, consigo ter mais clareza para encarar minhas crises de amor próprio. Em doses, pequenas e contínuas, como um conta-gotas, a percepção que tenho sobre quem sou vai se moldando, crescendo, se tornando mais forte do que as dúvidas. É um aprendizado constante, sem truques, dicas ou soluções prontas.

Que tal começar a descobrir o que te ajuda a ser mais forte e confiante? Conhecer o que te leva para frente, o que te impulsiona, mesmo quando o mundo te quer para baixo? Será uma jornada árdua, mas garanto que a recompensa será extraordinária e gratificante.

 

Mariana Zambon Braga
Responsável pela redação da Rede, é tradutora de inglês, formada em letras pela USP.
Atua nas áreas de: contratos, traduções técnicas, traduções literárias, artigos e monografias. Escritora por vocação e realizadora por necessidade.

 

Ela era eu e eu, ela

– por Dominique Marcon

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São quatro horas da tarde de uma quarta feira muito quente em São Paulo, e estou eu aqui no trem quase lotado a fazer uma das coisas que mais gosto nesta vida: observar as pessoas que me rodeiam. Acabo de notar uma garota linda, tão linda, ao meu lado. Ela, toda colorida pelas suas tatuagens, com temas florais e doces, uma frase em idioma estrangeiro que não consegui identificar. Usava um vestido florido com pano leve, de comprimento que ia até às canelas e pude notar que assim como eu, era gordinha e não fazia uso do bom e velho sutiã.

Percebi que usava também botinhas meio cano e piercings, no nariz e orelhas, um batom forte nos lábios e cabelos curtinhos como os meus. Aparentava ter seus 17 ou 18 anos.  Ouvi em sua conversa com seu namorado, que tinha um tom de voz que beirava sons agudos e finos, até um pouco infantil, que pretendia colocar outro piercing, daqueles que imitam uma pinta perto da boca.  Após ouvir segundos da conversa alheia e depois dessa arreparação toda, pude, enfim, me ver nela. Eu era ela alguns anos atrás, e ela, eu, daqui alguns anos.

Após longo tempo em devaneios, me encontrei em meus pensamentos. Desejei com todo o meu coração, e proferi a ela em voz interna, baixinho “Vai menina, seja o que deseja ser…tenha a coragem que eu não tive de colocar todos os piercings que deseja colocar…seja você, seja quem você desejar ser, como você quer ser.” Fechei meus olhos e fiz como que um pedido antes de soprar as velas de aniversário. Na verdade, o meu desejo era o de abraçá-la, pois, a relação foi das mais puras moradas de empatia e identificação total. 

Seria isto a tal da sororidade com as minas?  Fico aqui a refletir se este afastamento e os olhares de reprovação que temos umas sobre as outras não se dá por desejarmos ser como elas, e por nossos vários motivos não conseguimos ser.

Nos olhamos criticamente por sermos “tatuadas demais”, “tatuadas de menos”, gordas demais, magras demais, cabelos coloridos demais ou de menos, religiosas demais ou sem crença nenhuma, donas de casa demais ou do mundo, demais ou de menos. Nos identificamos e projetamos, demais ou de menos.

Não precisamos de mais reprovações ou aprovações para ser quem quisermos ser. Devemos e precisamos nos apoiar nas nossas diferenças, para, juntas, nos fortalecermos, para crescer e andar com nossas próprias pernas bem fortes, longe dessa sociedade que nos denigre, nos julga, nos condena e nos mata todos os dias.

 

Dominique Marcon, é Psicóloga formada pela Universidade de Santo André, no ABC Paulista. Já atuou como educadora de Pessoas com Deficiência. Tem a fotografia e as artes como um processo criativo de refúgio dos dias de marasmo e fuga do cotidiano. Vegetariana e amante de música e cultura Brasileira, e viagens por esse mundão. Escritora por observação, leitura dos dias e também por um pouco de súbita coragem.

Sobre a Arte de Saber Esperar (Ou, Não Era Para Ser Agora)

– por Elaina Nunes

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Imagem: Shiori Matsumoto
Não foram poucas as vezes que ao iniciar um projeto, ao dar de cara com obstáculos de toda sorte, juntei as peças, guardei tudo numa caixinha azul e o entoquei furiosa no fundo do armário mofado. Passado um tempo, o projeto (ou sonho, como preferir chamar) terminava misteriosamente saindo da toca e voltando ao baile, para novamente encontrar novas pedras, e mais uma vez ser tacado na gaveta bolorenta contra a sua vontade.

O que não havia captado até pouco tempo é que tal sonho não é uma fantasia, mas meu grande projeto de vida, o mais importante de todos, que entretanto ainda está em preparo para sua grande estreia. Coisas importantes precisam de maturação, estudo, planejamento e aprimoramento. Coisas importantes precisam de tempo. E dar tempo ao tempo é algo temido por muitos hoje em dia (estou nessa lista). Temos a impressão de estar ficando para trás.  Ao encontrar os nãos, os mas não tem como e os tabefes na cara, tendemos a achar que esse não é o caminho, queria tanto mas não é para ser, e corremos o risco de  desviar para aquele trajeto mais seguro que está ali dando sopa, e não espera grande esforço de nossa parte.

O que eu não havia captado até então é que os desvios involuntários foram oportunidades de aprimorar as habilidades que faltavam para executar meu desejado projeto pessoal. Que aquela porta que fechou ontem foi uma forma da vida me proteger de uma precipitação que faria com que meu avião não decolasse. Que a porta que se abriu, ainda que fora dos meus planos e desafiando meu controle, foi um curso de aprimoramento de minhas habilidades pessoais. Ou seja, é como se os anjos estivessem fazendo das tripas coração enquanto eu estou aqui, reclamando da vida, achando que está tudo errado.

Não importa quão caro seja seu sonho, se é ter um filho, casar, abrir um negócio, alcançar um cargo de liderança. Esse sonho demandará esforço e vivência. Não se alcança maestria sem aprendizado e experiência. E tudo nesse mundão leva tempo.  Olhar para a vizinha e imaginar, alá, quão fácil foi para ela ter uma família Doriana, enquanto cá estou escorregando aos prantos parede abaixo porque o João me abandonou. A vizinha está feliz com sua família sim, mas está pelejando para realizar o velho sonho de conhecer o mundo. Não conseguirá agora, tem filhos pequenos e a grana está curta. Está guardando um tantinho por mês para viajar aos 40. Não se compare; cada um tem um ritmo, um sonho e um tempo. E os fracassos não costumam ser tão divulgados nas redes sociais quanto as conquistas.

É preciso saber ler a vida.

É preciso complementar o não era pra ser, tão dito por nós às amigas que se frustram: amiga, não era para ser nesse momento, dessa forma.

O que é preciso aprimorar, trabalhar, ajustar, aprender para que venha, sim, a ser?

É preciso abrir mão dos caminhos fáceis, das vontades egoicas, dos falsos sonhos que nem nossos são.  Já dizia meu brother Camus, “para um homem, a coisa mais difícil de desistir é daquilo que, afinal de contas, ele realmente não quer”.  É preciso olhar para dentro.

É preciso olhar para nosso lado feio e entender porque raios ele tanto reclama. Dar a mão a ele, leva-lo à terapia. Comprar roupas não o silenciará. Atacar o outro tampouco.  É preciso saber pedir e aceitar ajuda.

É preciso entender que a vida é feita de altos e baixos, e se esforçar para atravessar a tormenta da melhor forma possível.

É preciso saber esperar produzindo. Catando as pedrinhas, juntando os caquinhos, arquitetando um super plano, estudando. E sorrindo!

Avante guerreira, há muito a fazer!  E me ajuda, por favor: o que mais é preciso? O que será que ainda não captei dessa loucura deliciosa de alcunha vida?

 

Elaina Nunes

Oraculista há 20 anos, realiza leitura do Tarô e baralho Petit Lenormand com abordagem terapêutica. Estuda e investiga Astrologia e Simbologia, iniciando sua formação na Escola Santista de Astrologia e CEAP – Centro de Estudos de Astrologia Psicológica. É mãe da Stella e apaixonada por Carl Jung. Em breve realizará atendimentos presenciais na Casa Feminaria.

Sobre pedir e confiar — por que é tão difícil?

– por Mariana Zambon Braga

A vida é uma complexa rede de cooperações. Uma teia construída sobre nossas relações de confiança. Quando somos crianças, dependemos dos adultos e não temos cerimônia na hora de pedir ajuda para tudo. Choramos quando sentimos fome. Confiamos nos braços dos nossos pais ao nos ampararem nos primeiros passos e nos aprendizados em geral. Confiamos. Somos vulneráveis, e não sentimos vergonha disso. Na verdade, nossa vida depende dessa vulnerabilidade.

Imagem: Unsplash

O tempo passa, os muros se constroem ao nosso redor. Queremos pedir, queremos nos conectar, mas as paredes não apresentam muitas brechas. As nossas, e as dos outros. Vivemos tentando espiar por entre esses espaços, ansiando pela conexão humana, real e verdadeira, sem constrangimentos. E, quando este contato acontece, a vergonha e o medo nos fazem desviar o olhar.

E não pedimos ajuda. Nos fechamos na nossa redoma de autossuficiência, correndo o risco de perder aquilo que nos torna humanos, pois não sabemos pedir. Sentimos medo de mostrar as fraquezas, ignorando totalmente o quanto precisamos uns dos outros. Sentimos pânico ao pensar na rejeição e nos esquecemos que existe uma forte possibilidade de que nosso pedido seja acolhido e que, de fato, receberemos a ajuda necessária. 

Isso tudo nos faz esquecer de que pedir, essencialmente, é uma forma de nos conectarmos. A troca que acontece entre quem pede e quem dá é uma manifestação física da confiança.

Estou relendo o livro A Arte de Pedir, da maravilhosa Amanda Palmer e quero aproveitar para recomendar a leitura. A Amanda é uma artista visceral. Foi a pioneira no crowdfunding de música, e o seu projeto teve a maior arrecadação da história do Kickstarter para um álbum musical.

Ao construir uma relação de confiança com seus fãs, Amanda criou uma rede de colaboração tão forte que conseguiu se libertar das gravadoras e se tornou uma artista independente, livre para produzir a arte para quem realmente importa: as pessoas que amam o seu trabalho. Como ela conseguiu essa façanha? Pedindo. Em seu livro, ela relata como, ao longo da vida, aprendeu que pedir não é algo vergonhoso. Que mostrar a sua vulnerabilidade, seja pedindo aos fãs um lugar para passar a noite, ou se jogando em seus braços num crowdsurfing durante um show, não a torna menos especial ou digna de reconhecimento como artista. Pelo contrário. Isso mostra um nível de confiança e entrega que é exatamente o que desejamos em nossos contatos com os outros. Aliás, todos os relacionamentos implicam em pedir alguma coisa, de certa forma. Nas palavras da autora:

Pedir é, em si, o elemento fundamental de qualquer relação. Constantemente e em geral de maneira indireta, muitas vezes sem falar, pedimos uns aos outros — aos chefes, aos cônjuges, aos amigos, aos funcionários — a fim de construir e manter as relações entre nós.

Você me ajuda?

Posso confiar em você?

Você vai me ferrar?

Posso meeeeesmo confiar em você?

E muitas vezes, por baixo disso tudo, essas perguntas derivam de nosso anseio humano, fundamental, em querer saber:

Você me ama? 

A gente tem a impressão de que, quando está trabalhando, vendendo um produto ou serviço, pedir é algo totalmente fora de cogitação. É como mendigar. É demonstrar uma vulnerabilidade que, segundo o que aprendemos na escola da vida adulta, não é adequada para quem trabalha de forma séria e profissional. Mas não é nada disso. Pedir é apenas pedir!

Já parou para pensar quantas oportunidades profissionais você deixou passar, por ter vergonha de pedir? Pedir para um amigo espalhar o seu currículo, pedir para divulgarem o seu produto, pedir ajuda para melhorar suas habilidades ou aprender algo novo? Isso sem contar em todas as vezes que nos sabotamos e nos esquecemos de pedir a nós mesmas a ajuda para perseguir algum projeto com o qual sonhamos. A Patrulha da Fraude, que a Amanda cita em seu livro, vive constantemente nos levando de volta para aquele lugar onde não merecemos ajuda, não somos capazes, não temos o que é necessário para convencer o mundo de que somos o que somos.

No contexto geral da vida, pedir parece ser a coisa mais difícil a fazer quando nos tornamos adultos. Até mesmo nas coisas banais — ou principalmente nelas. Vou inserir aqui um exemplo bem bobo, mas que ajuda a ilustrar meu ponto. Quando conheci meu marido, tive vergonha de dizer que não sabia andar de bicicleta. Perdi o medo e contei, esperando risadas, mas ao invés de rir de mim, ele disse “eu te ajudo a aprender”. Achei aquilo ridículo. Eu tinha trinta anos nas costas, não precisava pedir ajuda para uma coisa tão básica. Passei algum tempo pensando e me lembrei da infância. Eu não tive coragem – nem maturidade, convenhamos –  de pedir para o meu pai ter um pouco mais de paciência comigo, de dizer a ele que eu tinha receio de cair e me machucar, e quando percebi que tinha medo de tirar as rodinhas de apoio, desisti de tentar e de pedir ajuda. Passei trinta anos sem o prazer de passear de bicicleta na praia, porque tive vergonha de assumir minha vulnerabilidade. Quando eu aprendi a pedir, ainda que implicitamente, perdi o medo e consegui pedalar pela primeira vez. A sensação foi maravilhosa.

Pedir e confiar são verbos intrinsecamente ligados. São a base das nossas relações com o mundo. Eu vejo você e você me vê, nós nos ajudamos, nos conectamos e esta troca é o que nos faz crescer. É o que nos sustenta. É o que nos faz sentir gratidão e perceber que todo mundo precisa de alguma coisa e é capaz de oferecer algo em troca. Quando realmente enxergamos uns aos outros, sentimos essa necessidade de ajudar.

Vou terminar este texto pedindo a vocês: assistam ao vídeo abaixo. E não tenham vergonha de pedir. Do outro lado tem um monte de gente disposta a estender a mão.

 

Mariana Zambon Braga
Responsável pela redação da Rede, é tradutora de inglês, formada em letras pela USP.
Atua nas áreas de: contratos, traduções técnicas, traduções literárias, artigos e monografias. Escritora por vocação e realizadora por necessidade.

O Peso da Autenticidade

– por Mariana Zambon Braga

Uma das frases motivacionais que mais vemos espalhadas pela Internet e pelos livros de autoajuda é o conselho “seja verdadeiro”, que se traduz em ser você mesmo, não importa o que aconteça – e também sem importar o que o resto do mundo pensa a seu respeito.

A autenticidade, segundo consta, é o bem mais precioso que possuímos, no sentido de que se deixamos de ser quem somos para agradar a sociedade, ou para nos encaixarmos em algum meio – trabalho, escola, amigos, família – acabamos nos esquecendo de nossa essência e a vida se torna uma farsa. Viver a vida que esperam de nós deve ser algo muito cansativo, frustrante e triste.

Esse argumento é muito bom e eu concordo que devemos ser verdadeiros ao que acreditamos, buscar o nosso próprio caminho, exercendo nossa autenticidade e deixando de lado as máscaras que nos ensinam a vestir constantemente. Também acredito que todos nós temos algo de diferente e incrível e que não deve ser abafado ou escondido pelo simples fato de não fazer parte do status quo.

O grande problema, a meu ver, é que a maioria das pessoas não se conhece e acaba seguindo esse lema de uma forma equivocada. É quase impossível viver em harmonia com o mundo exterior quando a alma escancarada está exposta e nua.

E quando as máscaras caem, o que sobra?

Explico. Ser autêntico e verdadeiro pode significar falar o que bem entende, doa a quem doer. Mas isso não é necessariamente legal ou válido, porque o respeito, além de ser um código social, é um valor crucial para que a gente não saia por aí pisoteando nas pessoas.

Ser autêntico não precisa significar ser um cretino, ou alguém que desconsidera por completo os sentimentos dos outros. Implica em seguir caminhos nem sempre convencionais, que talvez levem à solidão e ao isolamento, porque nem sempre os estilos de vida alternativos são fonte de curiosidade e encanto, como nos filmes.

A autenticidade não é bem vista por aqueles que têm medo das coisas diferentes e que se sentem confortáveis somente com o que já é familiar e conhecido. Ou seja, assumir a sua essência e fazer as coisas do seu modo requer, antes, uma autoanálise e um profundo trabalho de autoconhecimento, para que se consiga aceitar as consequências de tudo isso.

Mas, em primeiro lugar, o que é, exatamente, ser autêntico? Mais importante ainda, o que é ser autêntico, no contexto de vida de cada um? Para uma pessoa que vive numa sociedade careta e quadrada, mais ou menos como a nossa, a impressão que se tem é que a autenticidade está atrelada a ser criativo, original, vestir-se de maneira irreverente, expressar a sua essência na maneira de ser e de agir, destacando-se dos demais.

Porém, o que acontece é que a autenticidade acaba sendo vendida como um estilo de vida, tornando-se um “produto cultural”. Como, por exemplo, as vestimentas típicas de algum movimento contraventor que são incorporadas pelas grandes marcas de roupas e se transformam em lugar-comum – vide as estampas de caveiras e de bandas de rock que dominam as vitrines por aí. Ou seja, símbolos de autenticidade que são usados por qualquer pessoa hoje em dia.

O capitalismo se aproveita do slogan “seja autêntico” para vender qualquer coisa, e funciona, porque no fundo é isso que buscamos – aquilo que temos de único e só nosso.

Parece confuso pensar em originalidade e autenticidade nos tempos em que vivemos, quando, exceto no âmbito da tecnologia, parece que tudo já foi criado. No entanto, se olharmos para trás, para os artistas e seres humanos geniais que já pisaram nesse mundo, conseguimos perceber que a autenticidade tem um peso um tanto quanto sombrio.

Galileu, Einstein, Van Gogh, Fernando Pessoa, Frida Kahlo, Nina Simone… Todos esses nomes, que foram os primeiros que vieram à minha mente, têm algo em comum: tiveram suas vidas pessoais conturbadas e expressaram, de forma muito autêntica, a sua real essência através das suas obras.

Viveram plenamente e marcaram para sempre a história da humanidade, porém não foram muito bem aceitos pela sociedade da época. Toda a essência genuína e verdadeira que carregavam dentro de si funcionava como um estopim para o ódio alheio. Talvez eles sejam o que chamamos de “gênios incompreendidos”.

E a verdade é que todo mundo que segue a vida sendo fiel a si mesmo, verdadeiro e autêntico, provavelmente será odiado.

Eu não sou famosa, nem genial, muito menos artista, mas procuro ser eu mesma – e é crucial mencionar aqui que eu demorei muitos anos da minha existência para conseguir descobrir quem eu realmente sou, despindo-me de todas as influências externas.

Na verdade, é um trabalho contínuo, que provavelmente não terminará até o fim da minha vida. E aprendi algumas coisas durante o exercício dessa minha maneira autêntica de ser:

  • As pessoas, em geral, são bastante falsas. Elas vão dizer mil coisas legais a seu respeito enquanto a sua essência não as fizer questionar nada, enquanto a manifestação de sua autenticidade for algo apenas superficial ou que não interfira em seus próprios conceitos.

 

  • Aqueles que você menos espera irão te aceitar exatamente como você é – incluindo em seus piores momentos obscuros. Costumamos pensar que a primeira aceitação deve vir de nossa família, porém é nela em que encontraremos as barreiras mais difíceis de transpor nesse sentido. Ser único e original em meio a pessoas que esperam muito de você e que já planejaram toda a sua vida é bem complicado. Portanto, é necessário praticar o desapego.

 

  • Ser autêntico não significa ser diferente do resto da humanidade e muito menos ser útil ou especial. Principalmente no que se refere à aparência. O ser humano é incrivelmente diverso e cada um de nós possui aspectos únicos e maravilhosos. No entanto, existem bilhões de pessoas no mundo e a probabilidade de encontrarmos alguém com as mesmas características que as nossas é bem alta. Além disso, somos animais sociais e desde o útero de nossas mães sofremos influências de tudo, o que provavelmente nos fará ter semelhanças de comportamento com os outros.

Viver a vida conforme a sua vontade, trilhar seu próprio destino, expressar-se genuinamente e esquecer-se das amarras e dos padrões que são pré-estabelecidos a nosso respeito – é difícil, é doloroso, não tem nada de glamoroso ou fácil nessa jornada.

Seria muito mais fácil simplesmente seguir o fluxo e remar a favor da maré. Porém, quando entramos no caminho do autoconhecimento e da descoberta de nossa alma, torna-se impossível ser qualquer coisa contrária a isso. Mesmo que signifique a nossa morte, a infelicidade, o não pertencimento ao que nos cerca.  

Ser verdadeiro consigo mesmo, não trair a sua essência, esse é o grande desafio da vida… e o mais pesado!


 

Mariana Zambon Braga
Responsável pela redação da Rede, é tradutora de inglês, formada em letras pela USP.
Atua nas áreas de: contratos, traduções técnicas, traduções literárias, artigos e monografias. Escritora por vocação e realizadora por necessidade.


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