PERDOA MAS ESTOU CANSADA DE TI, OH MEU AMIGO MEDO

por Elaina Nunes

[cml_media_alt id='581']Imagem: Jeremiah Ketner[/cml_media_alt]
Imagem: Jeremiah Ketner
Custou, mas enfim cheguei ao meu limite: estou de saco cheio. Revoltada com a impossibilidade de dirigir, de cruzar a orla da praia de bicicleta com minha filha na cestinha. Injuriada com o fato de ter trinta e seis anos e ser incapaz de dar um raio de uma cambalhota. “Você vai quebrar o pescoço”, urra minha mãe interna. Mãe, não tenho mais saúde para pressão interna, para medinho de não ser boa o suficiente, não corresponder as expectativas do mundo, levar um hadouken da vida e terminar estirada na sarjeta. Na boa? Já deu.

Bob Dylan diz que quando não se tem nada, não há nada a perder. Por isso peguei a panela de pressão e taquei o feijão nas mãos de Deus. O feijão saiu e a panela nem ousou explodir. Ai dela. Por isso peguei minha filha nos braços e me enfiei com ela no avião rumo ao Pará. Sim! após algumas noites em claro temendo que ela fizesse um escândalo, ser alvo de infantofóbicos, terminar batendo boca lá no céu e ser tacada da aeronave via paraquedas. A mocinha foi daqui até lá um anjo, e a despeito de outros desafios, cruzei a linha de chegada vitoriosa. Chupa, medo!

E é com alegria que hoje te olho nos olhos e digo: oh caro medo, você que sempre foi meu aliado, fica por perto, sou filha de Saturno e conheço suas qualidades. Mas por gentileza, entra aqui nessa caixinha cor de chumbo e fica quieto, ok? Te convocarei quando necessário, pode confiar. Você pode fazer isso por mim?  Há um mundo inteiro a conquistar e não há mais tempo a perder.  Um grande beijo e fim de papo.

 

Elaina Nunes

Oraculista há 20 anos, realiza leitura do Tarô e baralho Petit Lenormand com abordagem terapêutica. Estuda e investiga Astrologia e Simbologia, iniciando sua formação na Escola Santista de Astrologia e CEAP – Centro de Estudos de Astrologia Psicológica. É mãe da Stella e apaixonada por Carl Jung. Em breve realizará atendimentos presenciais na Casa Feminaria.

Viver é uma contenda

– por Danieli Corrêa

[cml_media_alt id='561']photo-1453974336165-b5c58464f1ed[/cml_media_alt]

Clash

substantivo (plural: clashes)

conflito m  (plural: conflitos m)

choque m  (plural: choques m)

confrontação f  ·  embate m ·  confronto m  ·  luta f  ·  atrito m  ·  colisão f  ·  disputa f  ·  querela f  ·  desentendimento m  ·  divergência f  ·  hostilidade f  ·  pugna f ·  discórdia f  ·  desacordo m  ·  contenda f

Minha banda preferida tem uma música que diz “devo ficar ou devo ir? Se eu for terei problema, se eu ficar terei problema em dobro”.

Eu fui. Conversei. Bebi.

Falo muito. Ele também.

Entre ficar e ir, eu fui.

Tive vontade. Sendo eu adulta, já vi, li, ouvi, vivi e reconheci muita coisa, a ponto de me entender como pessoa autônoma e livre pra fazer o que eu bem entendo e onde, quando e como quiser. Aquele sopro de confiança que a gente solta em frente ao espelho. Mas não pude ser.

Não sou.

Sou um recipiente.

Tive vergonha.

Mesmo já tendo lido, ouvido, sentido, vivido, reconhecido muita coisa, parece que nunca é suficiente. Sempre é possível se surpreender. Ouvi muita coisa de novo.

Tive medo. Se eu for, terei problema, se eu ficar terei problema em dobro.

Me vesti e fui.

Acompanhada sem querer estar. Sentindo culpa por ter vontade, por ser quem eu sou e como posso. Chorando. Ficar entre quatro paredes nunca foi tão assustador.

Andar na rua em plena madrugada nunca foi tão seguro.

Parti. Fui embora sendo cobrada uma última vez, “me avise quando chegar”.

Não avisei.

Tenho dor. Um peso. Aquele sopro de confiança em frente ao espelho se tornou uma bufada forte de desespero e alívio por finalmente poder me deitar em um ambiente acolhedor. Como lidar com a vida depois de ouvir, sentir, ver, viver e se reconhecer em uma situação de abuso?

Se eu for é problema, se eu ficar é problema em dobro.

Tô indo.

 

Danieli Corrêa

Formada em Letras pela Unesp, tradutora e revisora de textos, tia coruja e louca das cervejas e tatuagens. Escreve pra não gritar na rua.

Ela era eu e eu, ela

– por Dominique Marcon

[cml_media_alt id='558']photo-1465711403138-162e171bb7e4[/cml_media_alt]

São quatro horas da tarde de uma quarta feira muito quente em São Paulo, e estou eu aqui no trem quase lotado a fazer uma das coisas que mais gosto nesta vida: observar as pessoas que me rodeiam. Acabo de notar uma garota linda, tão linda, ao meu lado. Ela, toda colorida pelas suas tatuagens, com temas florais e doces, uma frase em idioma estrangeiro que não consegui identificar. Usava um vestido florido com pano leve, de comprimento que ia até às canelas e pude notar que assim como eu, era gordinha e não fazia uso do bom e velho sutiã.

Percebi que usava também botinhas meio cano e piercings, no nariz e orelhas, um batom forte nos lábios e cabelos curtinhos como os meus. Aparentava ter seus 17 ou 18 anos.  Ouvi em sua conversa com seu namorado, que tinha um tom de voz que beirava sons agudos e finos, até um pouco infantil, que pretendia colocar outro piercing, daqueles que imitam uma pinta perto da boca.  Após ouvir segundos da conversa alheia e depois dessa arreparação toda, pude, enfim, me ver nela. Eu era ela alguns anos atrás, e ela, eu, daqui alguns anos.

Após longo tempo em devaneios, me encontrei em meus pensamentos. Desejei com todo o meu coração, e proferi a ela em voz interna, baixinho “Vai menina, seja o que deseja ser…tenha a coragem que eu não tive de colocar todos os piercings que deseja colocar…seja você, seja quem você desejar ser, como você quer ser.” Fechei meus olhos e fiz como que um pedido antes de soprar as velas de aniversário. Na verdade, o meu desejo era o de abraçá-la, pois, a relação foi das mais puras moradas de empatia e identificação total. 

Seria isto a tal da sororidade com as minas?  Fico aqui a refletir se este afastamento e os olhares de reprovação que temos umas sobre as outras não se dá por desejarmos ser como elas, e por nossos vários motivos não conseguimos ser.

Nos olhamos criticamente por sermos “tatuadas demais”, “tatuadas de menos”, gordas demais, magras demais, cabelos coloridos demais ou de menos, religiosas demais ou sem crença nenhuma, donas de casa demais ou do mundo, demais ou de menos. Nos identificamos e projetamos, demais ou de menos.

Não precisamos de mais reprovações ou aprovações para ser quem quisermos ser. Devemos e precisamos nos apoiar nas nossas diferenças, para, juntas, nos fortalecermos, para crescer e andar com nossas próprias pernas bem fortes, longe dessa sociedade que nos denigre, nos julga, nos condena e nos mata todos os dias.

 

Dominique Marcon, é Psicóloga formada pela Universidade de Santo André, no ABC Paulista. Já atuou como educadora de Pessoas com Deficiência. Tem a fotografia e as artes como um processo criativo de refúgio dos dias de marasmo e fuga do cotidiano. Vegetariana e amante de música e cultura Brasileira, e viagens por esse mundão. Escritora por observação, leitura dos dias e também por um pouco de súbita coragem.

O dia em que minha vida mudou (ou esse tal câncer de mama)

– por Fernanda Savino

[cml_media_alt id='552']breast-cancer-pink-ribbon-810x537[/cml_media_alt]

Eu lembro exatamente desse dia: era uma segunda-feira, dia 24 novembro de 2014. Eu tinha 32 anos e tinha acabado de retornar de uma viagem de férias.  Tinha uma consulta marcada com o Dr. Ginecologista por conta de exames realizados antes de viajar, pois precisava tirar um nódulo que ocupava um espaço “grandinho” no meu seio esquerdo. Pois bem, cheguei no consultório com a minha mãe e esperamos pela nossa vez. Quando o Dr. Ginecologista chamou meu nome, entramos na sua sala e desatamos a conversar sobre a viagem. Eu era a última paciente daquela segunda-feira. No entanto, todo o clima ameno se dissipou no ar quando ele me disse que as notícias não eram tão boas. De repente, as palavras “câncer”, “quimioterapia” e “cirurgia” passaram a fazer parte da nossa conversa.

Foi um baita choque! Parece que o chão foge sob os seus pés e a cabeça não para de pensar em tantas hipóteses. Desatei a chorar, amparada pelas mãozinhas da minha mãe que apertavam a minha para me dar força. Eu, no auge dos meus 32 anos, sem nenhum caso de câncer na família, de repente, me vi de frente com aquele turbilhão de informações que eu nem sabia da onde vinham. A única coisa que eu conseguia dizer era “vai ficar tudo bem”.

E foi nisso que eu acreditei (e me agarrei com todas as forças) durante o meu tratamento. Fui pulando de uma consulta para a outra, um exame atrás de outro, até iniciar a quimioterapia no dia 18 de dezembro. Era uma mistura de ansiedade e medo, mas eu não tinha outra opção a não ser ser forte e enfrentar a coisa toda de frente.

Foi uma fase muito difícil para mim e acredito que também tenha sido para todos que me cercavam. Foram oito ciclos de quimioterapia (quatro “vermelhas” e quatro “brancas”) para diminuir o tumor. Depois de torná-lo do tamanho de um feijão, passei por uma cirurgia menos invasiva e, por fim, fiz trinta e três sessões de radioterapia, além de precisar tomar um “remedinho” na veia a cada 21 dias até março deste ano. O tratamento é extremamente agressivo e traz um monte de questões físicas e psicológicas com as quais você precisa aprender (ou acaba aprendendo “na marra”) a lidar. Mexe com a auto-estima, com os familiares, os amigos, o trabalho e mexe muito com os seus limites. No meu caso, me dei conta de que, de fato, não tenho controle sobre nada nessa vida e que é difícil pra caramba lidar com limites. Você quer fazer uma porção de coisas, mas não consegue porque o corpo não vai aguentar.

Muitas vezes eu não reconhecia a pessoa que aparecia no espelho: primeiro mais magra e careca, depois com o rosto mais inchado, sem as sobrancelhas e os cílios. Sou humana e isso implica em muitas escolhas e muitos sentimentos envolvidos. Diante de uma situação dessa, eu aprendi a lidar com o que eu queria fazer e não com o que eu tinha que fazer. Havia dias em que eu acordava sorrindo para tudo e para todos e não deixava que o tratamento acabasse comigo. Outros, porém, eu não queria levantar da cama e eu, simplesmente, não levantava. Havia dias que eu queria receber visitas, queria conversar com as pessoas, queria escrever… em outros, não queria falar com ninguém, queria apenas que o dia passasse, queria que o tratamento acabasse logo. É engraçado como com o decorrer da vida nós nos apegamos tanto ao “tem que ser assim” ou “tem que ser assado”. Com toda essa experiência, eu aprendi que nada “tem que ser”, mas que precisamos aprender a nos respeitar, acima de qualquer coisa.

Passados quase dois anos do dia em que recebi o diagnóstico mais assustador da minha vida, vejo que muita coisa mudou de lá pra cá. Ainda hoje sinto alguns dos efeitos colaterais, porém, já não me importo mais tanto com isso. O que importa é que passou e eu estou viva! A experiência toda com o câncer me trouxe (e ainda traz) inúmeros aprendizados, mas, ainda assim, eu jamais desejarei que alguém precise passar por isso para enxergar a vida com outros olhos. Hoje em dia eu aprendi a olhar para mim com mais amor; a cuidar mais de mim; a colocar a minha saúde em primeiro lugar, sem ficar adiando consultas, exames e/ou esquecendo de que eles são necessários. Percebi que o bem mais precioso que eu tenho é a vida e que é necessário aprender a viver um  dia de cada vez, com mais amor, serenidade e alegria. Hoje eu dou muito mais valor às pequenas coisas, aos pequenos gestos, ao amor que as pessoas compartilham comigo. Dou valor aos encontros, aos reencontros e até mesmo aos desencontros. E, acima de tudo, dou muito valor à minha saúde e à minha vida!

Fernanda Savino

Formada em Letras pela USP e em Direito pelo Mackenzie. Advogada de um grande escritório em São Paulo, atua nas áreas de direito bancário, empresarial, societário e mercado de capitais. Apesar de mudar completamente de profissão, jamais abandona sua paixão pela literatura.