Entrevista – Cafezim e Prosa: Projeto Mulheres Viajantes

Entrevista – Cafezim e Prosa: Projeto Mulheres Viajantes

Quem nunca deixou para trás um projeto de viagem por medo de cair na estrada sozinha? Por que a sociedade ainda torce o nariz para mulheres que se mostram independentes e que encaram suas jornadas e seus passeios sem ter um homem ao lado?

Pensando nessa e em outras questões, a Thaís Carneiro, em seu blog Cafezim e Prosa, criou o Projeto Mulheres Viajantes, que reúne relatos das corajosas mulheres que se aventuram pelo mundo afora. Conversamos com ela para saber mais sobre essa iniciativa.

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Como surgiu o projeto Mulheres Viajantes?

O projeto surgiu a partir do incômodo perante a cobertura midiática do assassinato das turistas argentinas Maria José Coni, de 22 anos, e Marina Menegazzo, de 21, no Equador, em que elas foram culpabilizadas, acusadas de estarem se colocando em situações de risco e de certa forma, legitimando o desfecho da história. Outro ponto que me chamou a atenção foi a recorrente menção à ideia de que elas estariam viajando sozinhas por não estarem acompanhadas de um homem e assim, contribuindo para a insegurança da sua viagem. Diante deste incômodo, decidi lançar o projeto como um discurso contrário, colocando que nós, mulheres, não devemos ser culpabilizadas enquanto vítimas, que temos o direito de ir e vir como todos.

Como foi a recepção/ participação no projeto por parte das mulheres que compartilharam seus relatos?

A recepção foi bem bacana, muitas mulheres se sentiram lisonjeadas pelo convite e com um espaço importante de fala, de exposição de suas experiências. Por muitas, a participação foi entendida como um ato político, de afirmação do gênero feminino em espaços que não são tidos como “lugar de mulher”, pois é quando nos confrontamos com o espaço público.

O engajamento de participação se ampliou com o anúncio do I Mulheres viajantes vai às ruas, encontro realizado no final de 2016, em São Paulo, para trocarmos experiências de viagem em uma roda de conversa.

A gente sabe que muitas mulheres sentem vontade de viajar, mas acabam desistindo por não terem companhia (e, consequentemente, por medo). Na sua opinião, quais medidas podemos tomar para vencer o medo e colocar o pé na estrada sem depender de ninguém?

A autorreflexão é necessária para avaliarmos até que ponto esse medo faz sentido e como ele pode estar restringindo suas ações. Pensando em estratégias práticas, o que costumo fazer é: ficar em quartos coletivos femininos em hostels; deixar os meus números de vôos/horários de ônibus e trem com os meus familiares bem como os contatos das pessoas com as quais vou me encontrar mesmo que seja alguém do Couchsurfing; reservar uma parte do dinheiro na doleira e outra trancada na mala; pesquisar e estudar bem o seu local de viagem tendo em vista hábitos/cuidados/locais perigosos através de blogs e relatos de outros viajantes; comprar com antecedência a hospedagem e o transporte, pois caso eu seja roubada, terei já tudo organizado.

Você já sofreu assédio durante uma viagem que fez sem uma companhia masculina (sozinha ou com amigas)? Como você lidou com estas situações estando longe de casa?

O assédio masculino, seja de cunho moral ou sexual, infelizmente é cotidiano para nós, mulheres. Em viagens, nunca sofri uma situação extrema de violência, apenas o assédio de olhares e uma palavra ou outra que insinuava algo a mais. Minha reação era seguir reto e não estabelecer contato visual.

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Na sua opinião, existe algum roteiro que seja “mais seguro” para a mulher que deseja começar a viajar sozinha, mas que ainda tem receio?

Acredito que a segurança vem mais de você do que do lugar. Para a minha primeira viagem sozinha de tudo, decidi voltar ao lugar que fiz intercâmbio, Buenos Aires, porque já conhecia a dinâmica da cidade e assim, podia me movimentar com mais tranqüilidade. Porém, acredito que se o teu medo é tão forte a ponto de te paralisar, vá para algum lugar que represente sua zona de conforto. Tenha em mente que o medo nunca passa. Pra mim, ele é cotidiano e é um instinto de sobrevivência mesmo, infelizmente.

O Primeiro Encontro Mulheres Viajantes vai às ruas teve uma ótima repercussão. Quantas mulheres participaram? Já tem alguma data marcada para o futuro? Quais são os próximos passos para o projeto?

Foi uma experiência incrível autogerida, em que estabelecemos uma roda de conversa com mulheres que em sua maioria, não se conhecia. Como o evento durou quase cinco horas, estimo a circulação de quarenta mulheres.

Teremos um novo encontro em São Paulo, no dia 04 de março, sábado, a partir das 14h, nos jardins suspensos do Centro Cultural São Paulo, próximo à estação Vergueiro. Além disto, estou organizando um encontro ainda esse semestre no Rio de Janeiro e um curso sobre Mulheres Viajantes na cidade maravilhosa.

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Aproveito para convidar a todas as mulheres viajantes que desejam compartilhar conosco suas experiências de viagem sozinhas ou entre mulheres a escreverem para cafezimeprosa@gmail.com e combinarmos a publicação na coluna. O projeto é coletivo e existe por conta da colaboração de vocês. Caminhando juntas, nos fortalecemos.

Acompanhe o projeto no blog Cafezim e Prosa , na página do Facebook e pelo Instagram.